Uns pensamentos sobre transporte público

Uns pensamentos sobre transporte público

7 de agosto de 2026 1 Por Lucas Conrado

Transporte público é daqueles assuntos que me pegam demais. Não só pegam, como também acho que deveriam ser mais debatidos. Afinal, ao contrário do que muita gente pensa, transporte público não serve só para trabalhar e estudar. Serve também como acesso a lazer, cultura, saúde. Mas, quase ninguém fala sobre isso e, quando querem falar, o foco da discussão é errado. Enfim, deixa eu tentar organizar meus pensamentos aqui.

Ter carro não é privilégio. Não precisar de carro é

Morei uns 14 anos em Botafogo. Bairro de classe média-alta da Zona Sul do Rio de Janeiro, muito bem servido de ônibus, metrô, taxi e Uber. De posse do meu bilhete único carioca, com integração dos diversos modais, eu não precisava ter carro. Não só não precisava, como eu era dos militantes que gritavam que você não precisa ter carro, tem que pegar ônibus, metrô, trem para se deslocar. O carro piora a mobilidade urbana, polui o meio ambiente, torna a cidade mais caótica. Aliás, ainda acho isso, mas com ressalvas.

Mesmo após completar os 18 anos, e ter condição para bancar uma auto escola, eu não tinha minha carteira de motorista. Não precisava dela.

Aí me mudei para Minas Gerais. Mais precisamente, para o bairro Gávea II, na periferia de Vespasiano. Um bairro barato e seguro, com muito comércio perto. Tirando banco e necessidades médicas, eu tinha quase tudo ali. E, se eu precisasse sair do Gávea II, pegava o ônibus 5715, com integração com o Move Metropolitano e, em mais ou menos 1 hora, estava no centro de Belo Horizonte.

Antes da pandemia, o 5715 passava a cada 20 minutos. No entanto, veio a Covid 19 e os horários do ônibus foram reduzidos, para tipo 1 hora de intervalo. Passou a pandemia, as pessoa voltaram a sair de casa e, mesmo quando o ônibus aumentou a frequência, não foi para cada 20 minutos. Era meia hora, 40 minutos. E, apesar de os ônibus continuarem numa frequência menor, religiosamente, a cada 8 de janeiro, a passagem aumentava mais. Da última vez que peguei o 5715, ela custava incríveis R$ 8,25.

Os ônibus eram barulhentos, quebravam no caminho. Eventualmente, um dos ônibus que ligavam Vespasiano a Belo Horizonte pegavam fogo. Amigos me chamavam para festas, reuniões, jogatinas e eu tinha que planejar o horário para ir embora, se ainda quisesse voltar pra casa na mesma noite.

E, quando eu reclamava da falta de ônibus, do preço e das más condições do transporte, uma galera achava que eu estava exagerando. Outras pessoas me diziam para sair do bairro, me mudar para Belo Horizonte. Outras ainda falava que eu deveria tirar minha carteira de motorista e comprar um carro. Todas elas moravam em regiões mais centrais de BH ou em bairros muito bem servidos de transporte público, tipo eu, quando morava em Botafogo e não precisava ter carro.

Foi aí que cheguei àquela conclusão importante: o verdadeiro privilégio não é ter carro. É não precisar de um.

“Ninguém quer contratar a gente”

Apesar de estar a apenas 9km da Estação Vilarinho, não existe um ônibus direto entre o bairro Gávea II e o metrô.

Esse bairro que morei, o Gávea II, fica relativamente perto da Estação Vilarinho do metrô de Belo Horizonte. Assim, falando de cobertura da cidade, o metrô de BH não é grandes coisas. Ele não te leva pra UFMG, pro Mineirão, Lagoa da Pampulha ou Praça da Liberdade. Mas, bem ou mal, liga uma parte de Contagem e a região norte de Belo Horizonte ao centro da cidade. Era uma alternativa rápida para eu sair de Vespasiano e ir pra lá.

Mas tinha um problema sério. Apesar de ficar perto, não tem uma ligação direta de ônibus entre o Gávea e a Vilarinho. Você precisa pegar algum Move Metropolitano saindo do Morro Alto ou o novo 506, saindo da Vila Esportiva. Ainda assim, tem que descer numa avenida já em BH e andar uns 2 ou 3 quarteirões até o metrô. Isso pagando quase 9 reais e num ônibus que pode pegar fogo no meio do caminho.

Até existe um ônibus que passa no bairro vizinho e vai pro metrô, mas, com sorte, ele passa a cada 40 minutos dia de semana. Aos sábados, a espera é de mais de 1 hora entre um ônibus e outro. Aos domingos, ele nem passa. Afinal, a galera da periferia de Vespasiano vai pra Belo Horizonte pra trabalhar. E só! Quer ir pro Parque Municipal curtir o dia com a família? Dá seus pulos!

E mesmo pra trabalhar, é complicado. Depois da falência da Avianca, e sem vagas na aviação, tentei voltar para o Jornalismo. Mandei muito currículo pra empresas de Belo Horizonte e ninguém me chamava sequer para entrevistas. Um dia, conversando sobre a falta dos ônibus com um morador do bairro, ele me falou algo que iluminou minha cabeça. “Ninguém em BH quer contratar a gente! Quem vai querer pagar o vale transporte de 9 reais daqui pra BH e mais 6 reais lá dentro da cidade?”. Pois é, transporte público ruim e caro condena a galera das periferias das regiões metropolitanas a empregos piores. Vai trabalhar na periferia de BH ou mesmo em Vespasiano, em empresas que não dão tantas oportunidades e bons salários como as da capital.

Esquerda x Direita nos transportes públicos

E aí que eu falo. NINGUÉM quer de/bater a sério a questão dos transportes públicos. No dia 20 de janeiro de 2022, um Move Metropolitano capotou na Avenida Vilarinho, na Zona Norte de BH. 29 pessoas ficaram feridas nesse acidente. O Move Metropolitano, sendo ônibus interurbano, é de responsabilidade do governo estadual, devendo ser fiscalizado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Por curiosidade, fui ler o que os deputados estaduais estavam tuitando no dia.

Os deputados à direita estavam com as bravatas de sempre. Matar bandido, juiz roubou o Atlético naquela rodada do campeonato mineiro. Juiz roubou o Cruzeiro na rodada anterior. Alguma coisa a favor do Bolsonaro. O de sempre. Os deputados de esquerda estavam lamentando a morte da cantora Elza Soares, por coincidência, no mesmo dia do acidente que machucou 29 pessoas.

Da esquerda à direita, do PSOL ao PL, não tinha nenhum deputado estadual de Minas Gerais comentando sobre um ônibus que capotou, machucando os seus eleitores. Cobrei vários deputados estaduais no Twitter, perguntando o que eles teriam a dizer sobre o acidente. Quase ninguém me respondeu. Só um deputado estadual do PT, desculpa, não lembro o nome dele, respondeu. “Quem olha ônibus é vereador. Tem que ver com eles”. Amigo, vereador fiscaliza ônibus urbano. Interurbano é de responsabilidade do Governo Estadual. Da Assembleia Legislativa. Sua responsabilidade.

E não adianta enviar email de reclamação para a comissão de transportes da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O máximo que fazem é ler sua reclamação para as câmeras. O setor de RP da ALMG te responde o email falando “o deputado fulano de tal leu seu requerimento” e manda um link do Youtube. Você assiste o deputado lendo seu email e nada muda. O ônibus continua caro, pegando fogo e passando de vez em nunca.

Os mantras que empobrecem a discussão

Infelizmente, em questão de transporte público, não temos muito com quem contar. Meu primo, hoje filiado ao PL, era vereador de uma cidade no interior de Minas. Num debate sobre os ônibus que atendem a cidade, ele apareceu na Câmara de Vereadores ao lado do dono da única empresa que vai pra lá. Ele disse que a população (que o elegeu) não deveria reclamar da empresa. O empresário estava tendo prejuízo cobrando menos que deveria das pessoas e que ele estava fazendo um favor atendendo a cidade. É isso que eu espero da direita. Defender os interesses das empresas. Gerar lucro.

Da esquerda, eu espero uma preocupação com a população. Mas, em questão de transporte público, não vejo essa preocupação. Claro, tem uns coletivos com debates sérios de mobilidade urbana. Mas o grosso que vejo da esquerda nas redes sociais, quando fala de transporte público, pede tarifa zero.

Tarifa zero é uma medida muito legal, que fique bem claro. Os ônibus urbanos de Belo Horizonte são gratuitos aos domingos. Quando preciso ir ao centro da cidade, deixo meu carro em casa e vou de ônibus. Pra você ter ideia, teve um domingo que meu siso estava doendo. Não fui pra clínica de carro, fui de ônibus. Era de graça!

Não adianta nada a tarifa ser zero se não tiver ônibus atendendo o bairro. Não adianta nada a tarifa ser zero se o ônibus quebra no caminho. Não adianta nada a tarifa ser zero se o ônibus pega fogo no trajeto! E digo mais, a tarifa zero é uma excelente desculpa para empresas de ônibus oferecerem um serviço pior. Afinal, como você quer ter um atendimento de qualidade se não paga a passagem?

São esses mantras da esquerda que empobrecem os debates e dão munição para a galera de direita criticar a esquerda. Tarifa zero não resolve o transporte público ruim. Desmilitarizar a PM não vai fazer uma polícia mais humana. Gritar esses mantras faz você parecer o cara de direita que diz que bandido bom é bandido morto. A intenção é boa, mas a discussão é rasa.

As falsas soluções

No fim das contas, a vida me levou a adotar algumas “soluções” que me davam quando eu sofria com a falta de ônibus em Vespasiano. Hoje, eu moro em Belo Horizonte, bem perto do metrô e do Move. E hoje, eu tenho um carro. A falta de ônibus da Região Metropolitana de BH não me afeta diretamente, então por que ainda estou falando disso?

Porque, apesar de eu estar agora mais bem atendido, meus antigos vizinhos ainda sofrem com os problemas que me afetavam até pouco tempo atrás. A galera do Gávea II continua tendo mais dificuldade que a galera de BH para conseguir ir num médico, num cinema, teatro, parque. Continua tendo mais dificuldades para conseguir um emprego melhor.

Não adianta nada eu ou você nos mudarmos para um outro bairro e comprarmos um carro. Não enquanto uma parcela da população continuar condenada a ter empregos ruins, pouco acesso a cultura e lazer porque falta ônibus, trem e metrô. E você pode achar que transporte público ruim não te afeta porque você não pega ônibus. Legal, mas você pega engarrafamento com seu carro, né? Sabe por que você pega engarrafamento? Porque você, eu, e quem tem um pouco mais de condição, não quer pegar ônibus, metrô e trem ruins. Quer ir no conforto do seu carro.

Eu prefiro o conforto do meu carro! Em BH, tenho deixado ele mais na garagem, mas uso meu carro pra ir no mercado, pro trabalho, para a casa dos meus sogros lá em Contagem ou eventualmente para lugares mais distantes do meu bairro. Mesmo sabendo que estou contribuindo para um trânsito pior da cidade.

Aí a gente não usa transporte público, não debate, não cobra melhorias. A mobilidade urbana é cada vez pior e ficamos todos presos em engarrafamentos sem fim.

Ah, e claro. Quem tem condição de ir pra Europa, acha lindo pegar ônibus e metrô pra rodar por Paris, Roma, Madrid ou Londres.

É tão chique andar de metrô em Roma! Rapidinho você está no Coliseu!