Pés no chão
— Amor, eu tô exausto. Vamos continuar depois? — suspirou Cléber.
— Vamos, amor. Nossa, The Bear acaba com a minha tranquilidade! — respondeu Marina, se levantando do aconchego do marido.
— Achei que fosse só comigo — Cléber se levantou do sofá — vou aproveitar pra terminar de arrumar as coisas.
— Que hora você tem que estar em São Paulo amanhã?
— Só de tarde, mas vou tentar pegar o voo das 8 e 20.
— Os voos estão cheios?
— Sim. Por isso vou cedo. Se não tiver vaga, vou no próximo.
— Você não quer tentar ir mais cedo, não?
— Ah não, amor. Já fico tão pouco em casa. Quero ficar umas horinhas a mais.
Cléber beijou a bochecha de Marina e caminhou até a área de serviço. Pegou algumas camisas sociais, o paletó, a calça e levou até a tábua de passar.
Enquanto passava a camisa do uniforme, ele olhou pela janela aberta. Apesar de já ser noite, ainda conseguia ver o perfil da Serra do Curral contra o céu noturno. Ao longe, luzes piscavam no céu. Mais um das dezenas de aviões que sobrevoavam Belo Horizonte todos os dias. No dia seguinte, Cleber estaria tripulando um deles, indo de Guarulhos para Fortaleza.
— Amor, vou pedir pizza. Você quer de quê? — perguntou Marina da sala.
— Ah, sei lá, escolhe aí.
— Já escolhi semana passada, escolhe aí hoje.
— Pega à moda.
— De novo?
— Uai, você não falou pra eu escolher? — ele perguntou com uma risada — pega à moda mesmo.
— Tá legal.
Cléber voltou a olhar o avião no céu, cada vez mais longe. Pelo trajeto, ia pra São Paulo. Como costumava acontecer, aquele pensamento voltou à sua cabeça. Como que 340 mil peças mantêm um Airbus A320 no céu? Que tecnologia maluca é essa que faz essas peças funcionarem em harmonia, milhares de vezes por dia, permitindo que esses aviões voem em segurança? Isso sem contar com todo o sistema de tráfego aéreo, as legislações, regulamentos internos das companhias e o próprio psicológico e físico dos tripulantes. É muita coisa pra dar errado, ao mesmo tempo que muita coisa dando certo. E garantindo que milhões de vidas sejam preservadas.
Inclusive a do próprio Cléber.
— Amor! Você tá queimando a camisa!
Cléber foi tirado de seu transe. Enquanto pensava nisso, deixou o ferro de passar parado sobre o uniforme. Ao tirá-lo, assustado, viu a mancha preta na altura do peito, bem em cima do logo da companhia.
— Puta merda! — exclamou colocando o ferro de passar no suporte — Já vou mandar o email pedindo a camisa nova.
Mais ou menos duas horas depois, com a camisa reserva já passada e as malas feitas, Cléber assistia ao Jornal Nacional comendo uma pizza com sua esposa. Sentados no sofá da sala, escutavam a apresentadora do jornal falar:
— E a NASA, agência espacial dos Estados Unidos, emitiu mais um alerta sobre tempestades solares. O Sol está em sua atividade mais alta já registrada. Os cientistas afirmam que…
— Você vai pra onde essa semana, amor? — perguntou Marina.
— Amanhã é Fortaleza, depois Montevidéu e no último dia, Porto Alegre.
— Aí você volta ainda na quinta?
— É, tá previsto a gente chegar de manhã cedinho. Madrugadão, né? Aí vou tentar pegar um voo bem cedo pra cá.
— Tá. Na quinta eu devo chegar mais tarde. Tem aquele evento da Tamiris no Buritis, não sei direito que hora eu chego.
— Sem problema. Vou tirar um cochilo de dia e à noite, pode deixar que eu cuido da janta.
— Por mim, não precisa preocupar. Vou jantar no evento mesmo.
— Talvez eu pegue algo no iFood, então.
— Só não come besteira.
— Tá…
Assim, Cleber e Marina foram conversando amenidades enquanto terminavam suas fatias de pizza. Depois de guardarem o que restou na geladeira e colocarem a louça na lavadora, o rapaz escovou os dentes e foi se deitar. Para estar em Confins às 8h20 da manhã, teria de sair bem cedo de casa. O trânsito na Cristiano Machado era bem ruim todas as manhãs, mesmo no contrafluxo.
Cleber acordou ainda de madrugada, com o celular despertando. Para não acordar a esposa, nem ligou a TV. Foi direto para o banho. Ele só despertava de verdade debaixo do chuveiro.
Vestiu o uniforme, deu uma última conferida em seus documentos na mala, tudo certo. Abriu o celular para conferir se já tinha um assento garantido no voo. Centenas de notificações do WhatsApp. 5h20 da manhã, cedo demais para conversinha. Então viu algo que o assustou:
Três ligações da escala, ainda de madrugada.
— Esse povo da escala não tem jeito! Eles sabem que não podem ligar na folga e insistem!
Impaciente, abriu o aplicativo da escala. Talvez houvesse alguma mudança. O aplicativo estava fora do ar. Normal, a cada novo atualização, o aplicativo ficava pior.
Novas notificações no WhatsApp. Ele detestava o aplicativo. Arrastou as notificações para o lado.
Então, tentou ligar na escala. Ocupado. Insistiu. Ocupado. Normal. Com certeza era a escala tentando negociar alguma troca para uma chave de voos pior. Chegando em Confins, tentaria de novo.
Depois de colocar as malas no carro e ligá-lo, Cléber abriu o Waze e colocou o caminho para Confins. Por mais habituado ao caminho que estivesse, gostava de ter uma previsão do tempo da viagem. Mas, naquela manhã, tinha algo de diferente. O app abriu o mapa offline, não tinha informações do trânsito em tempo real. Tentou o Google Maps. Também fora do ar. A internet ainda funcionava, um pouco mais lentamente que o normal, mas os mapas não. Estranho.
Enfim, Cleber sabia o caminho e saiu de carro. Como sempre, conectou o Spotify, que bom que ainda estava no ar, e colocou uma playlist para tocar. Próximo destino, Confins.
Cleber foi dirigindo pelas ruas do bairro rumo à Cristiano Machado. Naquela hora, o trânsito já começava a carregar, mas tinha tempo de sobra até chegar no aeroporto. Com sorte, ainda daria tempo de pegar um pão de queijo no Paçaí. Tudo ainda tinha uma certa normalidade até duas viaturas dos bombeiros e algumas ambulâncias ultrapassarem o carro de Cléber a toda velocidade.
Coisa estranha, não é normal aquela quantidade de viaturas no bairro. Ainda mais fazendo aquele trajeto. Será que eles procuravam caminhos alternativos à Cristiano Machado? Não é possível que a avenida já estivesse tão sobrecarregada naquela hora da manhã.
Estava.
Já era por volta das 6h30 da manhã e Cléber ainda estava preso na Cristiano Machado, próximo ao Minas Shopping. A não ser que houvesse um milagre nos próximos quilômetros, ele não chegaria em Confins a tempo de pegar seu voo das 8h20. Já preocupado, abriu o Flightradar24 para ver onde estava seu avião. Outra estranheza, nenhum avião aparecia no aplicativo. Não só sobre Minas Gerais, mas sobre o Brasil e o mundo. É como se não houvesse mais aviões no céu. Clicando nos aeroportos, todos os voos apareciam como “desconhecido”. Esquisito. O aplicativo tinha que estar com um erro, só podia ser isso.
Então, Cleber ouviu mais sirenes. Mais algumas viaturas dos bombeiros tentavam costurar entre o engarrafamento da Cristiano Machado. O motorista, que ia abrir o G1 para ver as notícias daquela manhã, deixou o celular de lado e foi tentar manobrar o carro, querendo abrir espaço para as viaturas passarem. Com muito custo, conseguiu. Ele chegou a considerar se enfiar atrás das viaturas, mas foram tantos carros com a mesma ideia que só piorou o trânsito. De repente, tudo estava uma loucura.
Cleber, então, pegou o celular para olhar as notícias. Assim que abriu o Chrome, o telefone tocou. Era Marina. Preocupante, ela odiava ligações telefônicas, só ligava em caso de emergência.
— Oi amor, acontec…?
— Onde você tá? — perguntou Marina aflita.
— Uai, na Cristiano Machado, indo pra Confins.
— Amor, volta pra casa.
— O quê? Não, amor, não dá, tô indo pra Confins.
— Amor, não tem voo hoje. Tá tudo cancelado.
— Como assim? Aconteceu alguma coisa? O aeroporto fechou.
— Fechou. Mas não foi só Confins. Foram todos os aeroportos. Amor, é horrível. Aconteceu alguma coisa que ninguém sabe o que é. Os aviões que tavam voando caíram. No mundo todo! Ninguém tá conseguindo decolar! Volta pra casa.
— Não, o quê? Que que você tá falando, amor?
— Liga na rádio, acessa o G1, olha no Twitter, tá todo o mundo falando disso. Só volta pra casa.
— Tá, vou desligar aqui, já to voltando.
— Volta, amor.
— Tá. Beijo, te amo.
Cléber nem esperou a resposta da esposa. Tremendo, e com frio na barriga, teve dificuldade para digitar no celular. Enquanto digitava, o aparelho tocou de novo. Era a escala. Assustado, Cléber quase deixou o telefone cair, mas atendeu:
— Comissário Cléber? — perguntou alguém aflito do outro lado da linha.
— Isso, aqui é ele.
— Ai, graças a Deus! Comissário, aqui é a Silvia, da escala. Está tudo confuso, não sabemos quem estava voando ou não. Onde você está?
— Em Belo Horizonte.
— Pernoitando?
— Não, tentando ir pra São Paulo. Tenho programação mais tarde.
— Não, não tem mais. Todos os voos foram cancelados. Volta pra casa e espera mais informações.
— Mas o que aconteceu?
— Desculpa, agora não dá pra falar. Só volta pra casa e espera notícias — e assim, Silvia desligou o telefone.
Cléber estava ainda mais assustado. Trêmulo, digitou g1 ponto com no celular. Assim que o site carregou, a notícia mais inacreditável da história estava ali. Ao redor do mundo, dezenas de milhares de acidentes aéreos. Aviões pequenos, grandes, helicópteros, balões, tudo que estava no céu havia caído de uma hora para outra. Fazendas, pequenas cidades, grandes cidades, aeroportos, as quedas aconteceram indiscriminadamente em todos os lugares, vitimando milhares a bordo e em solo. Talvez milhões. Aviões nas pistas não conseguiram decolar. O caos estava instaurado nos aeroportos. As bolsas de valores no mundo inteiro estavam em queda. Satélites de comunicação, GPS, científicos e militares fora do ar. Agências espaciais tinham perdido contato com astronautas em órbita. O caos imperava no mundo.
Agora, parecia fazer sentido o Waze e o Google Maps não estarem funcionando. Também começava a fazer sentido o Flightradar24 não mostrar ninguém no céu. As evidências estavam ali.
Mas aquilo não podia ser real. Se tantas aeronaves tivessem caído mesmo, era para o céu de Belo Horizonte estar todo esfumaçado. Praticamente todos os voos do Nordeste e muitos que vinham da Europa para São Paulo passavam ali. Era para a cidade estar em chamas com tantos acidentes aéreos.
Então, pela primeira vez naquela manhã, Cléber decidiu esticar o pescoço e tentar ver alguma anormalidade. O relevo de Belo Horizonte não ajudava muito, mas, fazendo um esforço, ele conseguiu ver uma coluna de fumaça preta subir ao longe. E outra. E outra.
Naquela hora, outra sirene dos bombeiros começou a soar ao longe, cada vez mais alto. Mais uma viatura tentando costurar o trânsito infernal da Cristiano Machado naquela manhã.

Sufocante …. Como tudo passa diante de nossos olhos , como o destino muda em segundos ….. eletrizante