A internet é tipo Os Simpsons
Em 2002, Os Simpsons lançaram o episódio Blame It on Lisa, na qual a família vai ao Rio de Janeiro para ajudar um garotinho que perdeu o contato com a filha do meio de Homer e Marge. Eu lembro que esse episódio causou muita polêmica no Brasil, já que mostrou ratos, macacos e cobras no meio do Rio de Janeiro, apresentadoras sexualizadas de programas infantis, sequestradores levando o Homer e tal. Da mesma forma que Os Simpsons zoavam o mundo inteiro, eles zoaram o Brasil. E os cariocas, que viviam zoando o Nordeste nos humorísticos da Globo, não gostaram de serem zoados. Enfim, mas meu foco aqui não é esse.
Me casei em junho de 2026. E passei a lua de mel na Itália. Enquanto eu andava por Roma, pensava no tanto que a internet parece com Os Simpsons, mas sem tirar sarro da situação. Tal qual o Rio de Janeiro mostrado na animação, eu esperava uma Roma perigosa, com golpistas e pickpockets esperando por turistas a cada rua. Tal qual o Rio de Janeiro da vida real, Roma tem os seus problemas, mas é uma cidade muito animada e receptiva com os turistas. E isso reforçou em mim uma ideia que vinha me alimentando há pelo menos um ano: a internet é uma versão piorada de Os Simpsons.
Não acredite em estranhos
É impressionante como, na internet, a gente descumpre uma das regras mais básicas que nossos pais nos ensinavam quando a gente era criança: não acredite em estranhos. Percebi isso no ano passado, quando visitei Madrid e Toulouse. Embarquei no voo para a Espanha morrendo de medo de como seria a recepção lá na terra do Cervantes. Isso porque, ali em meados de 2010, 2011, havia uma onda de notícias de xenofobia na imigração do Aeroporto de Barajas, especiamente contra brasileiros. De tempos em tempos, esse assunto voltava à moda.
Fui tenso no avião. Desembarcamos na Espanha. Atravessamos o lindíssimo aeroporto de Barajas e, ao passarmos pela imigração, a surpresa. O cara pegou o passaporte, carimbou e passamos. Fácil, simples, rápido. Você chega no aeroporto de Santiago do Chile, o pessoal da imigração pergunta quanto tempo você vai ficar no país, o que foi fazer, qual é o endereço onde você vai ficar e tal. Na Espanha, o cara só carimbou o passaporte e entramos.
Na França foi uma surpresa maior ainda. Anos de Instagram, YouTube e até Nerdcast me “ensinaram” que o francês é o povo mais ignorante do mundo. Que, se você não fala francês, vão cuspir na sua comida, isso se não cuspirem na sua cara. Visitei Toulouse. Eu nunca vi um povo tão receptivo, simpático e aberto a visitantes. E olha que sou mineiro! O madrilenho é educado, mas seco. O toulousano é educado e receptivo. Talvez por não ser uma cidade tão turística, Toulouse tem uma população que fica curiosa em saber por que um brasileiro foi pra lá e não pra Paris (resposta: por causa da Airbus). Muita gente conversou com a gente em inglês e mesmo os que só falavam francês se esforçavam para se comunicar e nos ajudar.
Confesso, fui esperando ódio e xenofobia. Recebi amizade e receptividade. Não dá para confiar 100% em estranhos de internet. Mesmo de pessoas que você consome conteúdo e que parecem ser suas amigas!
OBVIAMENTE QUE XENOFOBIA EXISTE, ESPECIALMENTE CONTRA IMIGRANTES. Mas, apesar de esses casos estarem cada vez mais numerosos, muito influenciado por essas mentiras que redes sociais contam, são cometidos por uma minoria. Inclusive aqui no Brasil, contra brasileiros que nasceram em qualquer estado ao norte de São Paulo.

Attenzione pickpocket!!!!
A viagem para a Itália nesse ano foi a mesma coisa. Enquanto minha esposa e eu fazíamos o roteiro da lua de mel, a gente viu muito conteúdo sobre o país da bota. E, de Roma, pipocam vídeos de crimes e golpes. Grupos de pickpockets no metrô. Pessoas enfiando pulseiras no seu braço e arrancando seu dinheiro. Gangues de ladrões de mala nos trens. Picaretas com jogo de bolinha no copinho. Apesar de eu ter visto muitos desses picaretas da bolinha em Roma, é só não apostar que está tudo bem.
Logo no primeiro passeio na capital italiana, eu vi que não era nada disso que a internet estava mostrando. Andamos a pé, andamos de metrô, rodamos todo o centro da cidade e não tinha nada de muito extraordinariamente ruim. Tirando o calor e as filas, Roma é uma cidade muito mais legal do que o Instagram vinha mostrando, com o conteúdo negativo.
Estou até agora esperando os enxames de pickpockets que o Instagram me prometeu. Claro, tomei cuidado que tomo em qualquer grande cidade, dentro ou fora do Brasil. Celular com cordão, mochila pra frente dentro do metrô, dinheiro e documento na doleira embaixo da camisa. Mas voltei da Itália com tudo o que levei e um pouco mais.
E, aguarde, que daqui a pouco vou fazer um roteiro das cidades que visitei, tipo esse roteiro aqui de Montevidéu.
Internet é os Simpsons mal intencionados
Como falei, a internet é tipo Os Simpsons. Pega partes da realidade, distorce, faz uma caricatura e entrega nos nossos feeds. Mas é uma versão piorada dos Simpsons. A animação é uma comédia, que tira sarro de tudo e de todos. Tira sarro do brasileiro, do francês, do australiano (excelente episódio, inclusive) e especialmente do estadunidense. Mas aí que está o foco, tira sarro, faz piada. Sabemos que não dá para acreditar no que aparece em Os Simpsons.
Já com a internet, a situação é bem pior. Porque, teoricamente, o seu influencer favorito está mostrando a verdade para você. Quando o influencer é bem intencionado, ele mostra a realidade que ele viveu. Gente é roubada em Roma. Quem é roubado em Roma vai ter uma imagem ruim da cidade. Influencer que foi roubado em Roma vai aparecer falando que foi roubado. E, se você assiste o vídeo desse influencer até o fim, a desgraça do algoritmo vai entender que você gosta daquilo e vai jogar na sua cara.
E vai reforçar a ideia que italiano é ladrão, espanhol é racista e francês odeia todos. Da mesma forma que é trabalhada por um grupo político para ensinar que africano, muçulmano e asiático vai pra Europa roubar emprego, estuprar mulheres e cometer terrorismo. Que ensina pra galerinha daqui do Sudeste do Brasil que nordestino é miserável que não sabe votar e vem roubar emprego. Aí surge uma minoria na Europa, assim como uma minoria no Brasil que efetivamente destrata galera de outros lugares e essa minoria barulhenta vira regra, se o algoritmo do Instagram quiser.
Infelizmente, a facilidade de entrar nas redes sociais é muito maior que de viajar. Se as pessoas viajassem mais, se conectassem mais, conhecessem mais a realidade, duvido que teria tanto ódio por aí. Por mais que Zuckerbergs e Musks tentassem lucrar por meio do ódio, as pessoas seriam ainda mais conectadas, aprendendo que o que você vê na internet não necessariamente é verdade.

