O jornalista de cabeça quebrada que queria voar
Parte 1: Cabeça quebrada
Nas primeiras horas da manhã do dia 24 de maio de 2018, um Airbus A320 da Avianca Brasil decolou do Aeroporto de Guarulhos com destino a Recife. Entre seus 150 e tantos ocupantes, havia um jornalista. Grandes coisas, um jornalista num avião. Apesar de o salário dos jornalistas ser uma bosta, eles ainda conseguem viajar de avião de vez em quando.
Mas esse jornalista tinha algo que a maioria dos jornalistas não têm: a cabeça quebrada. Vinte anos antes daquele voo, ali perto do Aeroporto de Guarulhos, médicos precisaram abrir um buraco no crânio daquele jornalista pra salvar a vida dele. Isso quando ele ainda era um garoto e nem pensava em ser jornalista.
Mas, mesmo menino, e sem a cabeça quebrada, o futuro jornalista tinha um sonho: voar.
Estreio meu novo blog contando a história de como quebrei a cabeça, passei pelo jornalismo e vim parar na aviação. E a história começa com minha mãe me fazendo a seguinte pergunta:
“Você quer mesmo ir pra escola hoje?”
Conselho de mãe tem que ser seguido a risca. Sempre. Isso não é segredo pra ninguém. Não sei que poder sobrenatural é esse que as mães têm de sempre adivinharem o futuro por meio de uma pergunta. Se sua mãe te falou pra levar o guarda chuva e você deixou ele em casa num dia que choveu, você sabe do que estou falando. Enfim. Na véspera do último dia de aulas de 1998, minha mãe me perguntou se eu queria ir pra escola mesmo.
Eu já tinha passado de ano, não tinha a menor necessidade de ir pra escola naquela manhã. Mas eu queria. Queria ir lá uma última vez. Queria me despedir dos meus melhores amigos da época, Diego, Maurício e Renato. Não era uma despedida qualquer. No ano seguinte, eu estaria em uma nova escola. Não ia estar mais com eles.
Falando em recreio, em toda minha vida escolar, fui um moleque quieto. Nunca fui de correr, brincar ou mesmo jogar bola no intervalo das aulas. Era comprar o lanche, sentar num canto e conversar. No máximo ficar andando no pátio, conversando com a galera e descansando. No entanto, naquele último dia de aulas, decidimos brincar de pique-esconde (ou esconde-esconde). Na primeira rodada, o Diego ou o Maurício foram a pessoa que procurava. Eu fui o primeiro a ser encontrado. Dessa forma, eu iria procurar os amigos na rodada seguinte.

A fenda no chão e a cabeça na parede
E lá fui eu, andando na direção da parede pra cobrir os olhos e contar até 50. Ao chegar perto do muro, enfiei o pé numa fenda e tropecei. Fui direto com a cabeça na parede. Até hoje, as pessoas me perguntam se eu desmaiei na hora. Não, não desmaiei. Foi uma pancada forte, uma dor que eu nunca tinha sentido e eu vi estrelas. Muitas estrelas. Constelações, aglomerados, galáxias, o universo. As crianças e monitoras correram para me socorrer. Me levantaram do chão e me levaram para a diretoria. Cheguei lá morrendo de dor de cabeça, mas ninguém acreditava no que eu falava.
Aparentemente, eu estava normal. Não tinha sangramento, sequer um galo na cabeça. Hoje, no serviço, faço cursos periódicos de primeiros socorros. Nesses cursos, eles ensinam que sinal de guaxinim (tipo uma olheira roxa), sinal de batalha (manchas roxas atrás das orelhas) e vazamento de líquor (um líquido brilhante que escorre dos ouvidos) são indicativos de traumatismo craniano. Olha, eu estava com traumatismo, mas não tinha nada disso. Além disso, eu era um moleque bem manhoso. Dessa forma, ninguém desconfiou que eu pudesse estar tão mal.
Mas eu estava. A pancada foi tão forte que houve o rompimento de algum vaso sanguíneo. E esse sangue começou a acumular dentro da minha cabeça, aumentando a pressão intracraniana.
(Observação. Um dia perguntei sobre isso para um neurocirurgião. Por que não tive o sinal de batalha, guaxinim e afins. Ele me explicou que esses sinais aparecem quando a fratura é na base do crânio. Como eu tinha fraturado acima da testa, elas não iam aparecer).
Voltando a pé pra casa
Acabou o recreio e voltamos pra sala de aula. Eu ainda sentia muita dor de cabeça e reclamava. Porém, como eu falei agorinha mesmo, eu era MUITO manhoso. Qualquer coisinha, eu estava chorando. Dessa forma, por mais que eu reclamasse de dor de cabeça, nem minha professora, nem meus colegas acreditavam. Ainda mais considerando o tanto que eu estava bem, aparentemente. No entanto, reclamei tanto de dor de cabeça, mas tanto, que acabaram me dispensando. Peguei as coisas, desci a escada e fui pra diretoria ligar pra casa.
Inclusive, memória aleatória do dia. O telefone da escola era aqueles de discar, girando o disco. Acho que foi a única vez que usei um desses na vida. Liguei pra casa e, pouco tempo depois, minha mãe foi me buscar.
Acho que ela deve ter ficado assustada quando a funcionária da escola ligou pra casa para que ela pudesse me buscar. Porém. ao chegar na escola, o susto passou. Como falei, eu não estava sequer com um galo na cabeça. Minha mãe me viu perfeitamente normal e, sem desconfiar do tanto que minha cabeça doía, me levou pra casa a pé mesmo. Dava uns 15 minutos de caminhada.

Pra minha sorte, eu comecei a vomitar
Cheguei em casa morrendo de sono, mas minha mãe não me deixava dormir. Aliás, preciso contar pra vocês. No ano anterior, minha mãe tinha feito curso técnico de enfermagem. Ela não chegou a atuar na área para além dos estágios em hospitais da Zona Leste de São Paulo. Porém, aprendeu muita coisa nesse tempo. Isso foi fundamental para eu estar aqui hoje, contando essa história.
Enquanto ela fazia comida, eu lutava contra o sono. De repente, meu estômago embrulhou e vomitei no chão. Lembra do curso de primeiros socorros da firma? Pois é, lá, eles ensinam que vômito em jato também é sinal de traumatismo craniano. E minha mãe, certamente, viu isso no curso dela também. Naquela hora, ela soube que eu não estava de manha. O negócio era muito mais grave do que parecia a princípio.
Os menos religiosos vão dizer que foi sorte minha mãe ter feito o curso técnico de enfermagem dela. Os mais religiosos vão dizer que foi Deus. Os mais céticos ainda vão dizer que foi um acaso. O lance é, se ela não tivesse feito o tal curso, havia grandes chances de ela pensar que eu estava vomitando por ter comido algo estragado, que não tinha nada a ver com a batida na minha cabeça.
Eu sei é que a gente trocou de roupa e, ao invés de levar meu irmão mais novo pra escolinha dele, ela me levou é pro hospital. Eu ia começar as férias de dezembro de 1998 internado.
Realizando um sonho
Uma vizinha nossa nos levou de carro até o Day Hospital, no Ermelino Matarazzo. Ali, fui internado e tiraram um raio-x da minha cabeça. É, realmente eu tinha rachado o crânio. Dormi no hospital e no dia seguinte, realizei um sonho de infância.
Ainda não era voar, era andar de ambulância.
Parece que o Day Hospital não tinha aparelho de tomografia computadorizada. Então me levaram pra só Deus sabe onde e lá me colocaram nessa máquina bizarra que parecia a entrada do motor (ou turbina) de um avião a jato. Quando os médicos viram o resultado da tomografia, tomaram um susto. Tinha MUITO sangue acumulado dentro do crânio. O sangue estava empurrando meu cérebro pro outro lado. Diz um médico que era pra eu estar urrando de dor. Mas eu estava tranquilo, de boas.
Fui transferido com urgência pro Hospital Nossa Senhora da Penha e lá eu fui direto pra sala de cirurgia. Eu já disse que tenho pavor de furar a veia? Pois é, se eu não disse, eu digo agora. Tenho pavor de agulha. Eu não fazia ideia do que os médicos iam fazer e não estava com o menor medo da cirurgia. Estava com medo é de o médico furar meu braço de novo pra dar a anestesia. Minha última lembrança foi de pedir pro médico aplicar a anestesia no soro. E de ele atender o meu pedido. Depois, breu total.

A primeira vez que ouvi falar de Eutanásia
Acordei me sentindo num filme. As luzes do corredor do hospital passando, enquanto sei lá quantos enfermeiros me empurravam numa maca. Meus pais estavam ali, com cara aflita. Tentei falar alguma coisa, mas minha voz não saiu. Minha mãe ainda me falou pra eu não tentar falar nada e voltar a dormir. A cirurgia tinha acabado e estava tudo bem. Daqui a pouco estaríamos juntos. Apaguei.
Acordei todo entubado numa UTI. Soro enfiado na mão direita, medidores de eletrocardiograma, o dreno saindo da cabeça… Apesar de ser quietinho na escola, eu nunca fui uma criança (ou um adulto) muito quieto. Se eu fosse uma criança de hoje, acho que diriam que sou hiperativo. Estar cheio de fios numa cama de UTI não era nada legal. Pior ainda é ser acordado no meio do sono por enfermeiras vindo tirar seu sangue. Lembra do medo de agulha? Pois é, fiquei com medo de dormir de novo. Mas o sono veio mais forte que o medo.
Dormi.
Mais do que assustadora, a UTI era entediante. Não tinha um minigame, um brinquedo, uma companhia pra conversar. Mal mal eu via outras pessoas. Dizem por aí que o paciente que mais reclama é aquele que está melhor. Eu devia estar bem demais, então, porque chamava toda hora as enfermeiras. Coitadas, toda hora um moleque chato chamando por elas. Quando apareciam, me diziam que não podiam vir toda hora porque ali na UTI havia bebês prematuros que precisavam de cuidado. E elas diziam estar ocupadas com aqueles bebês. Fiquei mais quieto.
Uma coisa que elas não falavam comigo, mas eu ouvia elas conversando entre si era sobre outro menino que estava na UTI. Ele tinha mais ou menos a minha idade, por volta de 9 ou 10 anos. Era filho do diretor do hospital. Não sei o que tinha acontecido com ele, se foi um acidente ou uma doença. Mas eu sei que ele só estava vivo porque ainda estava ligado a aparelhos. Se desligassem os aparelhos, sua vida acabava.
Até hoje eu não sei como terminou sua história.

Comida ruim, visitas rápidas, brinquedos, revistas e Leonardo
Meus pais vinham visitar todos os dias. Se não me engano, o horário de visita era às 15h. Só meia hora. Meu pai ficava comigo 15 minutos, minha mãe, outros 15. Meu irmão mais novo nunca apareceu. Acho que ver o irmão internado após uma cirurgia na cabeça devia ser uma imagem assustadora demais pra alguém de sete anos de idade. Enfim, meus pais tentavam me consolar, me alegrar. Difícil, especialmente na hora que iam embora. Aí voltava o tédio e a solidão.
As enfermeiras vinham de tempos em tempos cuidar de mim. Davam algum medicamento, monitoravam algum aparelho. Fazer xixi ou cocô era complicado. Eu fazia num penico de metal gelado. Um dia, apareceram para me levar pra tomar banho. Acho que me levaram de cadeira de rodas até o banheiro. Não é nada legal ser lavado por pessoas desconhecidas.
Em algum dia, uma enfermeira trouxe uma revista para eu ler. Em 1998, saiu nos cinemas o filme Godzilla, com o Matthew Broderick. A matéria principal da revista era justamente sobre esse filme. Devorei a matéria e conheci a história do famoso monstro japonês.
Por falar em japonês, de tempos em tempos, aparecia o Doutor Renato para ver como eu estava. Ele era descendente de orientais e era simpático. Sempre me pedia para comer a horrorosa comida do hospital. “Se você comer tudo, eu te dou um guaraná”. Com muito custo, comi a comida toda no dia seguinte.
28 anos depois, ainda lembro do gosto do arroz do hospital. E ainda espero pelo guaraná do Doutor Renato.
No outro dia, minha mãe apareceu com uns brinquedos para eu me distrair. Eram dois bonecos de personagens do Jurassic Park e dinossauros. Ajudaram um pouco a passar o tempo, mas era difícil brincar com sua mão direita imobilizada, com tala e soro. E os dinossauros às vezes caíam da maca. E lá vinha eu pra dar mais trabalho pras enfermeiras, pedindo pra elas pegarem o pterodátilo no chão da UTI. Ah, e eu lembro que minha mão direita estava com tala porque escrevi com muita dificuldade um bilhete pros meus pais. Escrevi com a mão esquerda, mesmo sendo destro. Não lembro o que o bilhete dizia, talvez alguma coisa sobre sentir saudade.
E, por fim, outra lembrança forte que tenho dessa época era das enfermeiras escutando a música Mano, do Leonardo. Naquele mesmo ano, poucos meses antes, seu irmão, Leandro, havia morrido de câncer. Leonardo, então, gravou essa música em homenagem ao parceiro.
Fora da UTI, o horror de me ver no espelho
Uns três dias depois de entrar na UTI, chegou o momento de sair. Olha, sou um cara ansioso até hoje. Mas poucas vezes estive tão ansioso quanto nesse dia. Me tiraram da maca e me colocaram numa cadeira de rodas, ainda ligado ao aparelho de eletrocardiograma. Minha maior distração até a saída daquela prisão foi controlar a respiração pra acelerar e desacelerar os batimentos cardíacos. Minha mãe estava comigo. Irritada porque o Doutor Renato não aparecia para me dar alta. Tinham me prometido que eu ia sair da UTI em uma hora lá. Saí horas depois.
Fui para um quarto ficar em observação mais alguns dias. Não lembro muitos detalhes, mas eram duas camas, acho que um sofá e um banheiro em outro cômodo. Eu dormia numa cama, minha mãe na outra. Já nesse quarto, meu irmão veio me visitar, junto com minha vó (que veio de lá do interior de Minas). Junto com eles, veio um tio meu que é médico, junto com minha tia e meu primo. A única parte da família que ainda mora em São Paulo.
Inclusive, nesse dia, meus pais me deram o presente de Natal antecipado. O caminhão-base de lançamento de foguetes da Matchbox. Passei o ano sonhando com esse brinquedo. Acho que meus pais se compadeceram da minha situação e compraram ele. Quebrar o crânio e sofrer uma cirurgia na cabeça tem suas vantagens!

Mas nem tudo foi flores nesses dias. Um dia, fui ao banheiro e me vi no espelho pela primeira vez. O corte da cirurgia começava logo acima da testa e descia num arco até a costeleta esquerda. Os médicos rasparam só essa parte da cabeça, deixando o restante do cabelo no tamanho normal. Esse foi meu primeiro susto ao me olhar no espelho. O corte estava coberto por um esparadrapo, mas a imagem já era assustadora.
A situação piorou depois de alguém tirar o esparadrapo, revelando os pontos da cirurgia. Ao ver 56 pontos cruzando minha cabeça, eu comecei a chorar e entrei em pânico. Não conseguia mais ver meu reflexo. Sempre que eu ia ao banheiro, minha mãe cobria o espelho com uma toalha.

Próxima parada: McDonald’s
Passei mais uns 3 dias no quarto de observação. Ia na capela do hospital com minha mãe. Inclusive, lá conhecemos um pai com seu filho hospitalizado. Esse pai era a cara do Léo, um amigo meu de Carmo do Cajuru (MG). Foi nessa época que também vi pela primeira vez o berçário, com bebês recém nascidos. Não entendia como os pais e parentes sabiam qual era o bebê certo que eles foram ver. Eram todos tão iguais! Um dia, brinquei com minha mãe que nem eles sabiam qual era o parente deles.
Mas aí chegou o dia mais feliz da minha vida até então. Mais feliz até do que o dia que eu tinha voado de avião pela primeira vez. O dia de ir embora para casa. E, depois de quase uma semana comendo aquela comida horrível de hospital, tivemos que fazer uma parada estratégica no McDonald’s. Comemorei minha saída do hospital da melhor forma, amassando um Quarteirão com Queijo.
Aliás, que me perdoe o Whooper. Mas o Quarteirão é disparado o melhor hambúrguer dessas redes internacionais de fast food.
Depois eu volto com a Parte 2: o Jornalista
