Juscelino Kubitschek, Carmo do Cajuru e efeito borboleta
Eu só existo por causa do Juscelino Kubitschek. Sim, o ex-presidente do Brasil, que foi morto em 1976, 23 anos antes de eu nascer. Eu adoro a teoria do caos, aquela ideia que uma borboleta batendo asas no Uruguai vai fazer chover na Etiópia. Agnóstico que sou, não sei quem ou o que controla o Universo, se é que existe uma grande força controlando tudo. Então eu gosto de pensar nos acasos que fazem as coisas se encaixarem e eventos acontecerem. E é um acaso desses que começou com Juscelino Kubitschek sendo governador de Minas e terminou com meus pais se casando.
Juscelino Kubitschek
Juscelino Kubitschek nasceu em Diamantina, lá em 1902. Em 1920, ele foi pra Belo Horizonte estudar medicina, onde se formou em 1927. Se especializou em urologia em Paris, em 1930 e 10 anos depois, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte, pelo Governador Valadares, sim o que dá o nome à cidade.
Já como prefeito de BH, Juscelino já mostrou como seria enquanto chefe do executivo, trazendo uma série de transformações pra cidade. Construiu avenidas, parques, praças. Se juntou com os parça Burle Marx, Oscar Niemeyer e Cândido Portinari e construíram o complexo da Lagoa da Pampulha. Enfim, fez muito por Belo Horizonte e, sem saber, começou a ensaiar o que faria em Brasília na década seguinte.
Em 1950, se tornou governador de Minas Gerais. E foi aí que ele começou a mover as peças que resultaram no meu nascimento. Como governador, construiu estradas, centros industriais, como a Cidade Industrial de Contagem. Ele também criou a Companhia de Energia de Minas Gerais (Cemig) e lançou um plano de construir usinas hidrelétricas para alimentar essa cidade industrial.
A primeira hidrelétrica

O Rio Pará, entre Divinópolis e Carmo do Cajuru, abriga a Usina Hidrelétrica do Gafanhoto. Essa usina aí é mais antiga que a própria Cemig, sendo construída em 1946. Enfim, mas não é sobre ela que vou falar. Um dos planos da companhia criada pelo Juscelino, era a construção de outra hidrelétrica, ainda maior que deveria armazenar água para a Gafanhoto funcionar mesmo em período de seca.
E, claro, já que ia por um paredão pra barrar a água, já coloca uma turbina nesse paredão e ele também gera eletricidade. Foi assim que, 24km acima, ainda no Rio Pará, foi construída a Pequena Central Hidrelétrica de Cajuru, inaugurada em 1959. De acordo com a biografia de Juscelino Kubitschek escrita por Claudio Bojunga, o próprio JK foi à usina pra acompanhar sua construção. E, entre os milhares de construtores que trabalharam aí, estava um tal de João Conrado. Se você reparou que meu blog é olucasconrado.com.br, já começou a entender a relação.
João Conrado

João Conrado foi meu avô. Descobri poucos anos atrás que ele nasceu no Espírito Santo, mais precisamente em Marataízes. Em algum momento de sua vida, ele se mudou para Nova Era, onde a família Conrado se estabeleceu. Enfim, ele fez curso de eletricista e, em algum momento, começou a trabalhar na Cemig.
Ele conheceu a Maria de Lourdes e se casaram. A Cemig devia pagar muito bem porque, entre meados de 1947 e 1965, eles tiveram nada menos que 16 filhos. Dos 16, só 10 chegaram à vida adulta, cinco meninos e cinco meninas. Dessas cinco meninas, a penúltima era a minha mãe. Uma coisa curiosa é o seguinte, meu avô teve cada tio meu em uma cidade de Minas. Tá, eventualmente, alguns tios nasceram na mesma cidade. Mas, num geral, eles nasceram em cidades diferentes.
Isso porque meu avô se mudava muito por causa da Cemig. Participava de uma obra aqui. Depois ia para outra ali. Depois ia para lá e para cá. É um negócio meio Geraldo Viramundo, o personagem principal do livro O Grande Mentecapto, do Fernando Sabino, que viveu em sei lá quantas cidades de Minas. Essa foi a família dos meus avós.
Enfim, dizem meus tios e primos que, nessas andanças por Minas Gerais, sô João Conrado foi parar em Carmo do Cajuru para participar da construção da hidrelétrica encomendada pelo governador Juscelino Kubitschek. E ele teria se apaixonado pela cidade. E teria dito que iria morar ali quando se aposentasse.
Juscelino Kubitschek acabou com os trens?

Dizem por aí que o Juscelino Kubitschek matou o transporte ferroviário do Brasil. Beleza, quando foi presidente do Brasil, ele investiu pesado no transporte rodoviário e chegou a planejar uma nova capital pro país feita pra andar de carro. É um horror tentar andar a pé em Brasília, parabéns aos envolvidos. Mas o que pouca gente fala é que o Juscelino criou em 1957 a Rede Ferroviária Federal.
A Rede, como era conhecida por seus funcionários e famílias, federalizou 18 grandes ferrovias em todo o Brasil e tinha o objetivo de unificar o país por meio da ferrovia. O que faz muito mais sentido que essa maluquice de ligar o Brasil por estradas, como a gente vê hoje em dia. Tá, mas o que isso tem a ver com a nossa história? Tudo.
Um dos funcionários da Rede Ferroviária foi um cara nascido perto de Oliveira, chamado José Alves. Ele casou com a Dona Francisca e teve quatro filhos. Dos quatro, três chegaram à vida adulta e o mais novo foi o meu pai. A família se estabeleceu em Divinópolis. Mas, após uma confusão com um dos meus tios, meu pai e meus avós foram obrigados a se mudar para Carmo do Cajuru, morando na beira da ferrovia que ligava Belo Horizonte a Goiás e onde meu avô paterno trabalhava.
O encontro
Meu vô paterno morava em Carmo do Cajuru com a família. E era funcionário público de uma empresa criada pelo presidente Juscelino Kubitschek. Meu vô materno se aposentou e foi embora pra Carmo do Cajuru com a família em 1980. Ele se aposentou como ex-funcionário público de uma empresa criada pelo governador Juscelino Kubitschek.
Sabe quem morava em Carmo do Cajuru em 1980? Meu pai. Sabe quem se mudou pra Carmo do Cajuru em 1980? Minha mãe. Sabe quem se casou em Carmo do Cajuru em 1985? Meu pai e minha mãe. E sabe quem me teve na cidade vizinha, Divinópolis, em 1989? Ah, vocês entenderam, né?
É isso. Por causa do governador e depois presidente Juscelino Kubitschek, meus pais acabaram se encontrando em Carmo do Cajuru, se apaixonaram, casaram, tiveram eu e meu irmão. Então, quando me perguntam qual foi o melhor presidente do Brasil, a resposta é muito simples, o Presidente Bossa Nova, o cara que construiu Brasília e, sem saber, fez meu pai e minha mãe se conhecerem anos depois do próprio presidente morrer.
Se você está lendo isso aqui, agradeça o Juscelino Kubitschek.
Obrigado, JK!
