Clément Ader, o inventor de “avião”
Se você é brasileiro, certamente já viu a polêmica de quem é o inventor do avião. Muita gente defende que foi o Santos Dumont. Outras pessoas já dizem que foram os Irmãos Wright. E se eu te falar que quem inventou “avião” não foi nem o brasileiro, nem os estadunidenses, mas um engenheiro francês chamado Clément Ader, você acredita? Pois trate de acreditar, ele é o inventor de “avião”. Não, não estou falando da máquina, mas muito antes de Santos Dumont, Irmãos Wright ou qualquer outro sair voando por aí, o francês criou a palavra que daria nome às máquinas mais legais que existem.
Anticlimático? Desculpa. Mas fica aqui pra conhecer a história do engenheiro francês. E entender porque algumas pessoas defendem que ele não só inventou a palavra avião, mas também uma máquina que teria voado em 1890, mais de 10 anos antes que Irmãos Wright ou Santos Dumont.
Clemént Ader e o moinho

Clément Ader nasceu em Muret, no sul da França, em 2 de abril de 1841. Os Ader eram uma tradicional família de carpinteiros há gerações e o sonho de François, pai de Clément, é que o filho seguisse no ramo. No entanto, o gosto do garoto era por máquinas desde pequeno. Isso porque seu avô morava num moinho de vento e o Clément adorava ver o maquinário funcionando lá dentro, movido pelos ventos.
Essa mistura de ventos com maquinário fez Clément desenvolver um sonho ainda criança: queria construir uma máquina voadora que fosse mais pesada que o ar. Ele ainda não tinha inventado a palavra, mas queria construir um avião.
Dessa forma, por mais quisesse que o filho fosse para a área da carpintaria, François decidiu enviá-lo a Toulouse para ter uma educação formal e pudesse se tornar engenheiro. Assim, aos 12 anos, Clément ingressou no internato L’Institution Assiot. Três anos depois, sendo considerado um estudante sério e dedicado, particularmente forte em matemática e desenho, Clément se graduou.
Poucos anos depois, Clément fez parte da primeira turma da escola industrial do L’Institution Assiot. Assim, acabou se graduando em engenharia elétrica aos 20 anos de idade, em 1861. Concluídos os estudos e com um diploma embaixo do braço, chegou a hora de ser gente grande e procurar um emprego.
Entre velocípedes e trens

O primeiro emprego de Clément foi na Compagnie du Midi, uma empresa ferroviária, onde foi supervisor de obras. Ele trabalhou na empresa entre 1862 e 1866 e foi ali que conseguiu aplicar na prática tudo que havia aprendido sobre engenharia.
Então, em 1867, Paris recebia a Exposição Internacional e, interessado por novidades que era, Clément foi à capital francesa para visitar a feira. Por lá, ele se interessou por velocípedes. O que é isso? Imagina uma bicicleta sem pedal, na qual o condutor se desloca pondo o pé no chão, como num patinete. É isso. Enfim, ele viu um velocípede e se interessou pelo negócio. Até porque ele queria resolver o problema das rodas de metal.
Imagina você andando num negócio com rodas de metal numa rua de pedra, tudo tremendo. Incômodo, né? Por isso que, no ano seguinte, Clément Ader começou a produzir velocípedes com pneus de borracha, muito mais confortáveis para se andar. Ele ainda criou um novo quadro para os velocípedes, dando mais sustentação e leveza para eles. As coisas iam bem, até estourar a Guerra Franco-Prussiana de 1870, que colocou fim ao negócio de Ader.
Precisando colocar comida em casa, ele voltou a trabalhar em companhias ferroviárias. Nessa época, desenvolveu uma máquina que assentava trilhos, facilitando a construção de ferrovias por toda França nas décadas seguintes. E, além de ferrovias, Clément também construiu relações. Pois é, ele se casou com uma moça chamada Antonine Castex em 23 de janeiro de 1877. Exatos 122 anos antes de eu nascer.
O tataravô do Spotify

Apesar de seu nome estar conectado à aviação, Clément Ader também passou pela área de telecomunicações. Alexander Graham Bell registrou a patente do telefone em 1876. Mas o aparelho tinha uma qualidade de som muito ruim, sendo difícil entender o que as pessoas estavam falando. Foi Adler, em 1878, que aprimorou o projeto do inventor estadunidense. Assim, Clément se mudou para Paris em 1880, onde começou a trabalhar com redes de telefonia.
No ano seguinte, Clément criou o tataravô do Spotify, o Teatrófono. O que é isso? Um aparelho que te permitia ouvir as apresentações da Casa de Óperas de Paris sem sair de casa! E o melhor, com som estéreo! Isso porque microfones instalados dos dois lados do palco captavam o som e transmitiam para os aparelhos que estivessem nas casas até três quilômetros dali. O negócio fez tanto sucesso que, nos anos seguintes, começou a ser vendido também na Bélgica, Portugal e Suécia.
Legal, mas e o avião?
Ao longo dos anos, Ader passou horas observando não só o voo de pássaros, mas também de morcegos. A primeira tentativa de voar foi ainda em 1874, quando Clément criou um planador. A máquina pesava uns 24 quilos e tinha envergadura de nove metros, além de poder receber motores. O problema é que, na época, os motores não eram leves o suficiente para fazerem alguma coisa voar. No fim das contas, o projeto nunca decolou, com o perdão do trocadilho.
Então, chegamos em 1880. Dessa vez, Clément tem um patrocinador de peso para seus projetos, nada menos que o Ministério da Guerra da França. Com apoio governamental, ele começou a desenvolver sua nova máquina voadora. A máquina teria 6,5 metros de comprimento e 14 metros de envergadura. Inclusive, as asas da aeronave tinham um formato muito parecido com as de morcego. Dessa vez, ela teria um motor a vapor com 20 cavalos de potência. Qual era seu nome? Avion I. Assim nascia a palavra avion, ou ave grande, que daria origem a avião, em português.
No fim das contas, o avião, ou melhor, Avion I ficou pronto só na década seguinte, em 1890. Aí, em 9 de outubro, ele levou a máquina (que depois foi rebatizada de L’Éole, em referência ao guardião dos ventos da Mitologia Grega) para Siene et Marle, nos arredores de Paris. O primeiro teste da máquina aconteceria numa pista de 200 metros ali.
Os projetos de Clément Ader
O motor de 20 cavalos gritou e começou a girar a hélice de 4 pás do avião de Clément Ader. O engenheiro sentiu a máquina começar a correr e foi deslizando pela pista até decolar! Para todos os efeitos, o engenheiro realizou seu sonho de voar. Ok, a máquina voou a apenas 20 centímetros do chão. E o voo foi de apenas 50 metros. Mas voou, não?
Nos anos seguintes, Ader começou a construir seu segundo avião, o Avion II. Mas o projeto nem chegou a ser finalizado. Ele serviu de base para construir o Avion III. Essa máquina agora tinha dois motores. E, além do piloto, podia levar um passageiro. Os testes aconteceram em outubro de 1897 e, apesar de Clément dizer que sentiu a máquina sair do chão algumas vezes, o voo não foi confirmado pelos militares que o acompanhavam. No fim das contas, o projeto dos aviões estava caro demais e o governo cortou o financiamento.

Clément Ader é o pai da aviação?
Afinal, Clément Ader é o pai da aviação ou não? Seus defensores, assim como os de Santos Dumont, dizem que ele, sim, inventou o avião, afinal, fez uma máquina que saiu do chão com força própria, sem o auxílio da catapulta dos Irmãos Wright.
Por outro lado, tem especialista que diz que nem o próprio Clément tinha certeza se tinha voado ou não. Isso porque, ele só tornou público os voos do Eóle em 1909, três anos depois do Santos Dumont voar por Paris com seu 14 Bis e seis anos depois dos Irmãos Wright dispararem o Flyer de uma catapulta. Eles ainda afirmam que as máquinas do Clement não tinham leme direcional, nem os estabilizadores que ajudavam a controlar o avião. Assim, sem controle, não seria possível atestar que o Avion era efetivamente um avião.
Porta aviões e selo

No fim das contas, Clément Ader nunca conseguiu construir um avião funcional. Mas isso não o afastou da aviação. Em 1910, publicou um livro chamado L’Aviation Militaire. Nesse livro, ele contou a história de suas aeronaves e criou a ideia de um navio que pudesse carregar aviões. Sim, ele criou o conceito de Porta Aviões, inspirando a Marinha dos Estados Unidos a desenvolver a ideia a partir de 1911.
Ele morreu aos 84 anos em Toulouse, no dia 3 de maio de 1925. Em 1938, o Governo Francês lançou um selo comemorando a vida e obra do inventor. E, muitas décadas depois a Airbus batizou uma das fábricas em Toulouse com o nome de Clément Ader.
E você, conhecia o criador da palavra avião? Você acha que ele é o pai da aviação?
