Mandaloriano e Grogu: do nada a lugar nenhum
Acabei de sair do cinema onde assisti ao novo filme de Star Wars, Mandaloriano e Grogu. Depois de sete anos, esse é o retorno da saga ao cinema. Bem, depois dos últimos lançamentos nas telonas e de algumas das coisas que saíram pro Disney+, a expectativa estava baixa. Mesmo as minhas, e olha que AMO Star Wars e me dedico aos filmes desde 2000, quando vi pela primeira vez A Ameaça Fantasma. Enfim, na escada rolante do shopping, minha noiva definiu muito bem o que é Mandaloriano e Grogu: “Tive a impressão que o filme leva do nada a lugar nenhum”. É sobre isso que vou falar nesse texto.
Pra começar, não é um filme ruim. Está longe de ser o pior filme da saga Star Wars (A Ascenção Skywalker, estou olhando para você). Por outro lado, está muito longe de ser o melhor filme da franquia. Os efeitos especiais são legais. Tem lutas boas. A trilha sonora é o ponto alto do filme (nem dá pra acreditar que é do Ludwig Goransson, o mesmo cara que fez a trilha sonora de Community), Mas, ao mesmo tempo, as reviravoltas não me surpreenderam e, em momento algum, eu temi pela vida dos personagens e algumas soluções me pareceram um tanto convenientes e outras inexplicáveis.
Tá, mas qual é a história do filme?
Depois dos acontecimentos das três temporadas de The Mandalorian, o Mando agora é um PJ trabalhando para a Nova República. Se, no começo da série ele pegava qualquer trabalho de caça ou captura, agora ele só vai atrás de ex-oficiais do Império. A Nova República está atrás de um oficial que eles não sabem quem é ou mesmo como é a cara dele e, para conseguir essa informação, Mando e Grogu vão ter que fazer um trabalho para Os Gêmeos, os irmãos do Jabba The Hutt, que assumiram a máfia depois que a Leia matou o antigo manda chuva, lá no Retorno de Jedi.
Ao entrar em contato com os Gêmeos, eles querem que ele vá à lua de Sakhari para resgatar Rotta, o Hutt. Você assistiu ao “filme” The Clone Wars? Lembra daquele bebê, filho do Jabba The Hutt, que o Anakin e a Ahsoka resgata? Então, ele precisa ser resgatado de novo. Num primeiro momento, o Mando recusa a missão, afinal ele não trabalha mais para mafiosos. Mas aí o Zeb, sim, aquele Zeb do Rebels, lembra a ele que o trabalho é para a Nova República e ele vai resgatar o Matt Damon espacial.
Entendeu? Matt Damon? Que precisa ser resgatado em Perdido em Marte, além de (SPOILERS) O Resgate do Soldado Ryan e Interestelar? O Rotta também precisa ser resgatado em dois filmes? Ah, esquece.
Enfim, aí começam altas aventuras, reviravoltas, e emoções… Tá, não muitas emoções, mas começam.
O que eu gostei no filme? Começando pela música
A trilha sonora do filme é boa. Ludwig Goransson criou uma das músicas mais legais de todo Star Wars, que é o tema do The Mandalorian. Ele também criou o tema do Grogu, que dá muito o tom do emocionante final da segunda temporada, que é completamente desperdiçado em O Livro de Boba Fett, além da terceira temporada do The Mandalorian e no filme. (Vou falar sobre isso em outro texto).
Enfim, a trilha é boa, apesar de o que vai ficar na sua cabeça é mais as reinterpretações do tema já conhecido do que as músicas novas. Mas, já me adiantando, tem uma parte da trilha que eu não gostei muito. Logo após os créditos iniciais, a nave do Mando pousando numa base rebelde, cenas de mecânicos mexendo nos caças da Nova República, o tema da série tocando… de repente, sem nenhuma transição nem nada, vem uma outra versão do tema, num tom totalmente diferente, mais alto.
Sabe, eu não sou músico. Mas, antes de ser comissário de voo, trabalhei anos editando vídeos, podcasts e áudio. A impressão que fiquei é que a cena era mais longa que a música e eles colaram duas faixas diferentes num corte meio abrupto. Talvez eu esteja sendo chato demais, mas, enfim, aqui no meu blog é o que eu acho das coisas.
Sou fã e quero service

O filme está cheio de fãs services, especialmente para os fãs véio paia tipo eu, que cansou de ver a Trilogia Clássica. Por exemplo, numa cena em que o Grogu precisa construir um abrigo pro Mando, a casinha tem o estilo arquitetônico da casinha que o Yoda vive em Dagobah. Aliás, Nal Hutta, o planeta dos Hutts tem uma cara meio de Dagobah, e o Grogu andando pelo pântano com uma bengalinha nos faz lembrar bastante do mestre Yoda em O Império Contra Ataca. O filme cospe fan service na sua cara.
Mas o maior dos fan services de Mandaloriano e Grogu é a cena da arena de Sakhari. Por algum motivo que o filme não explica (e nem precisa, na minha opinião) o Rotta está trabalhando como lutador numa arena a la Coliseu em Sakhari. E ele precisa fazer uma última luta antes de ser liberto. A pintura do chão da arena já lembra um tabuleiro de Dejarik, aquele “xadrez” holográfico que o C3PO e o R2D2 jogam contra o Chewbacca na Millennium Falcon, lá em Uma Nova Esperança.
Os bichos que são soltos para lutar contra o Rotta são exatamente os bichos do Dejarik, inclusive com umas cenas que você olha e fala “ah, eu vi o que vocês fizeram aí”. Sou fã e quero service. É meio previsível, mas gostei da cena. Fazer o quê?

O que não gostei em Mandaloriano e Grogu? Conveniências de roteiro
Vamos lá conversar sobre os problemas de The Mandalorian e Grogu. O primeiro é a conveniência do roteiro. Tem três cenas do filme que essa conveniência me chamou bastante atenção e vou tentar falar sobre elas sem dar spoiler.
A primeira é um momento que o Mando e o Grogu se separam e o bebê precisa ir atrás de seu amigo. Aí ele pega carona com uma galera que sabe para onde o Mando foi levado. Tá, mas como eles sabem disso? Porque, em momento algum, eles escutaram onde o Mando está indo. Eles não colocaram rastreadores na nave que separou o Mando do Grogu. Simplesmente não sabem. O Grogu sabe, mas como ele é um bebê, ele não sabe falar, não contou para os carinhas onde o Mando está. Eles foram para o lugar certo porque motivos. Legal.
Outro momento de conveniência de roteiro é quando o Mando está sem armas e para numa nave abandonada completamente armada. E a nave tem uma arma muito poderosa que ele usa na primeira temporada da série. De novo, gente, não faz sentido essa nave ter as armas lá. Ainda mais no contexto em que ela foi abandonada e no lugar onde ela está. Aberta, como está, com certeza uma galera já teria entrado lá e feito a limpa. Para.
Tem mais cenas assim, mas se eu falar delas, vou estar dando spoiler. Mas tem essas coisinhas que fazem você ter a impressão que eles precisavam fazer o filme andar, então, deixa essas coisas assim mesmo. O filme é pipoca, não é pra ser sério… Tá.
A falta de senso de perigo
Em diversas partes do filme, o Mando se mete em situações que parece que ele vai morrer. Inclusive, perguntei à minha noiva, que não acompanha Star Wars se ela ficou tensa em algum momento, e ela disse que em uma cena do filme, pensou que o Mando morreria. Só que, assim, se você acompanha as notícias de Star Wars, ou tropeçou na CNN Brasil, você sabe que vai ter uma quarta temporada de The Mandalorian. Então, em momento algum do filme, eu me senti tenso, sabe? Hora nenhuma eu senti que o Mando ou o Grogu estivessem em perigo, por mais que o filme quisesse nos fazer sentir isso.
Sério, em vários momentos, eu pensava “ai, daqui a pouco o Grogu vai aparecer pra salvar o dia”. E, dois minutos depois, o Grogu aparecia pra salvar o dia. Aí dali a pouco eu pensava “tá, agora o Mando vai aparecer pra salvar o dia”. E… o Mando aparecia pra salvar. Se você entende um mínimo de como Star Wars funciona, você já espera que situações vão acontecer e elas acontecem. Nada de muito emocionante.
Vamos pegar, por exemplo, a série Andor. Se você viu Rogue One, você sabe o que vai acontecer com o Andor. Você sabe o que vai acontecer com a Mon Mothma. Mas, ainda assim, os roteiristas constroem situações que te deixam tenso, querendo saber o que vai acontecer na sequência. Querendo saber se os outros personagens vão morrer ou não. Em Mandaloriano e Grogu, você meio que não liga para os outros personagens e não tem nenhuma grande tensão construída. Só vai vendo as cenas de ação, de luta, de batalha e como elas se resolvem sem muito drama.
Aliás, a gente sabe que o Mando é um guerreiro habilidoso, mas nesse filme ele sai matando todo o mundo sem suar. Parece a gente jogando um jogo de aventura no fácil.
Será que estou me tornando uma das pessoas mais chatas do mundo?
Vale a pena ver Mandaloriano e Grogu?
Como minha noiva falou muito bem, você termina Mandaloriano e Grogu com a sensação que a história foi do nada a lugar nenhum. Não avança no enredo da série. Não traz nenhuma grande revelação. Não muda nada estrutural em Star Wars. No máximo, o Mando recupera o cargueiro que ele tinha antes (isso não é spoiler, está no trailer) e aparece um ou outro personagem secundário novo. Se você não assistir ao filme, não vai ter a menor diferença para a próxima temporada da série.
Complementando o comentário da minha noiva, eu lembrei da piada inicial do filme dos Simpsons, lá de 2007. Aquela hora que o Homer levanta no cinema e pergunta por que estamos pagando ingresso para ver algo que passa de graça na TV. The Mandalorian não passa de graça, você precisa pagar o Disney+. Já que já está pagando, espera o filme sair no streaming. Não precisa gastar dinheiro com ingresso de cinema, não.
Não tinha expectativa nenhuma para o filme e minha total falta de expectativa foi atendida. Não é um filme ruim, mas não vale o deslocamento para o cinema e seus gastos.

