Epaminondas e a criatura da noite

Epaminondas e a criatura da noite

22 de fevereiro de 2026 0 Por Lucas Conrado

Epaminondas se ajeita na cadeira de praia e olha para o relógio. São 2h15 da madrugada. Faz frio, muito frio no alto da Serra do Ouro Fala. Mas aquela é a melhor época do ano para se observar o céu e aquele é o melhor lugar. As luzes de Claudio, cidadezinha do interior de Minas, não atrapalham a vigília ali. E o céu do inverno quase não tem nuvens. Só existe o incômodo do frio, mas Epaminondas tenta se proteger com camadas de cobertor e algumas garrafas térmicas cheias de café.

Além de espantar o frio, o café também combate o sono. Aposentado, Epaminondas deixou a esposa em Divinópolis e foi para a cidade vizinha continuar sua caça. Os vizinhos tiram sarro, falam que ele deixa a esposa em casa para aprontar. Ele tem mais o que fazer do que caçar rabo de saia. Epaminondas tem uma missão pessoal, um sonho a realizar. Esperava um reencontro desde seus nove anos de idade, quando teve uma experiência inesquecível no sítio de seu avô. Ali nos pés daquela mesma serra.

A experiência ainda era muito vívida na cabeça de Epaminondas, mesmo depois de mais de meio século. Ao bebericar um gole do café, se lembrou da vontade de ir no banheiro que o levou para fora de casa. O sol no meio da madrugada e… a lembrança desapareceu. Estava acontecendo de novo?

Um movimento no céu chamou sua atenção, pela visão periférica. Ao olhar para cima, viu algo de diferente. Parecia uma estrela, mas se movia. Não era um movimento retilíneo e uniforme, como os milhares de satélites que ele viu no céu, nesses mais de 50 anos de observação. Não. A tal estrela se deslocava de uma constelação para outra e parava. Diminuía sua intensidade e aumentava novamente. Mudava de direção, ia para outra constelação. Girava, parava, trocava de direção e continuava o balé.

Epaminondas se animou. Pegou a câmera filmadora caríssima que tinha comprado e apontou para cima. Ainda não começou a gravar. Sabia muito bem que não conseguiria focalizar aquela estrela direito. E o autofoco da câmera não conseguiria atingir algo tão pequeno, apesar de brilhante. Então pegou uma lanterna muito potente e apontou para o objeto. E começou a piscar.

O objeto estava muito alto. Epaminondas não sabia quanto, mas sabia que estava muito alto. Sabia, também, que por mais potente que a lanterna fosse, provavelmente a tal estrela, ou quem o tripulasse, não o enxergaria. Mas não tinha nada a perder. Apontou a lanterna para o objeto e começou a piscar. Uma, duas, três. Cinco vezes. Então, se arrepiou com o que aconteceu.

O balé parou. O objeto parou no céu, se camuflando com as milhares de estrelas que se poderia ver no meio do nada em Minas Gerais. E começou a piscar. No mesmo ritmo das piscadas da lanterna. Epaminondas piscando do chão. A coisa piscando do céu. E nesse pisca-pisca, a luz começou a se aproximar. Veio descendo, num movimento errático.

Estava acontecendo!

Epaminondas filma uma luz branca no céu
A luz desce do céu, se aproximando de Epaminondas

Naquela hora, Epaminondas tremia. Não de medo, mas de emoção. Depois de décadas sendo chamado de maluco, finalmente ia registrar a aproximação de um ovni. Com sorte, de criaturas extraterrestres. Ele deixou a lanterna acesa na direção da luz e sacou a câmera. Agora ia filmar.

Assim como aconteceu na sua infância, o objeto se aproximou dele, planando a uns 10 metros do chão. Parecia um sol branco, no meio da madrugada, iluminando tudo a seu redor. Apesar de ser uma luz forte, não era incômoda. Era quase hipnótica.

Não foi só aquilo que se repetiu. A coisa, que não dava para se ver o que era, emitiu um facho no chão. Epaminondas não conseguiu definir se a criatura tinha se teletransportado ou se tinha sido pisado no chão flutuando. Mas estava ali, na frente dele. A mesma criatura que ele tinha visto ainda criança.

Media mais ou menos um metro e meio. Magra, muito magra. E branca, muito branca. Na cabeça oval, dois grandes olhos negros se destacavam. A boca era pequena, quase um rasgo abaixo de duas fendas, que eram seu nariz. A criatura saiu do facho de luz e andou na direção de Epaminondas. Não parecia ter medo, nem querer se esconder da lente apontada para ela. Muito pelo contrário, parecia interessada naquilo.

Andava alguns passos e parava. Olhava para o idoso e sua câmera. Mais uns passos, mais uma pausa. E foi assim até chegar perto de Epaminondas. A um braço de distância. A tal criatura esticou o braço e pegou a câmera na mão. Nessa hora, o homem sentiu medo. Não de ser ferido pela criatura, mas de ela querer levar a câmera para a espaçonave e ele perder a filmagem de sua vida.

A criatura olhou para a câmera, ainda curiosa. Girou o objeto e apontou a lente para o próprio Epaminondas, enquanto via a gravação pelo visor. Olhou para a tela da câmera, para Epaminondas, para a tela novamente e mais uma vez para o idoso. Esticou o braço novamente e largou a câmera no colo do homem. Epaminondas se apressou a pegar a câmera novamente e olhar para o visor. Ainda estava gravando. Ele apontou para a criatura novamente, que já estava interessada em outra coisa.

A criatura andava na direção do Renault Clio de Epaminondas. Tateou a lataria do carro e se abaixou para observar um pneu. Tateou mais um pouco do carro e se entediou. Ela andou até a luneta de Epaminondas e, ao esbarrar no objeto, o derrubou no chão, quebrando sua lente. O idoso nem se importou. Só queria filmar a criatura. Ela, então, andou até umas caixas e pegou uma das garrafas de café de Epaminondas. Abriu a tampa e cheirou o vapor. Abriu um pouco mais e tentou beber. Assim que o líquido quente tocou sua lingua, a criatura olhou para Epaminondas e correu novamente na direção do facho de luz, segurando a garrafa térmica.

E desapareceu. Assim como a luz.

Epaminondas não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Sabia que, se contasse, ninguém acreditaria. Trêmulo de emoção, olhou novamente para a câmera, que continuava filmando, agora uma escuridão completa. Estava eufórico. Não só tinha reencontrado o extraterrestre parecido com o que havia ido ali uns 50 anos antes, mas agora tinha filmado. Uma filmagem incontestável. Provavelmente, a primeira filmagem incontestável da história da humanidade. Não estávamos sozinhos no universo e ele iria provar para todos.

Mas, antes, precisava ver se tinha registrado tudo. Tinha. Estava tudo ali, no cartão de memória da sua câmera. Quase cinco minutos de filmagem, não só da luz se aproximando, mas também da criatura. Até mesmo o próprio Epaminondas aparecia ali, quando a criatura tinha filmado. Tudo em 4k, em altíssima qualidade. Ele era o primeiro ser humano a gravar um extraterrestre com clareza. Todos iam acreditar nele!

Epaminondas nem se deu ao trabalho de recolher as coisas. Deixou quase tudo para trás, só jogou a câmera e o notebook dentro do carro e arrancou na direção de Divinópolis. Uma imagem daquela não poderia esperar até a manhã seguinte. Ia compartilhar a novidade com o mundo ainda pela manhã. E ele sabia para onde ir, para a TV Integração, afiliada da Rede Globo na cidade. Conhecia algumas pessoas lá, alguém o levaria para falar com um jornalista.

Chegou na TV Integração por volta das 4 da manhã. Como esperado, o segurança não quis atendê-lo, afinal, quem deixaria um velho maluco entrar na Globo no meio da madrugada. Epaminondas tentou argumentar, mas o segurança foi irredutível. Então, o idoso sacou a câmera e mostrou para o segurança. Ele fez uma ligação e, depois de 2 minutos no telefone, convidou Epaminondas a entrar.

Alguns funcionários da TV Integração assistiram à gravação. Alguns, assustados. Outros, curiosos, mas o editor de imagens do turno, tinha uma opinião muito diferente.

– Olha, seu Epaminondas, seu vídeo é muito legal. Um trabalho muito, mas muito bem feito. Mas é claramente imagem de inteligência artificial. Desculpa, mas a gente não pode por isso no ar.

– Que inteligência artificial o quê! – protestou Epaminondas – Eu nem sei mexer com esses trem! É real! Acabou de acontecer lá em Claudio!

Mas o editor estava irredutível. E ainda conseguiu convencer outras pessoas ali. O assombro pela filmagem se transformou em indignação. Perderam um bom tempo ali vendo mais um vídeo de inteligência artificial.

Epaminondas não desistiu. Desceu até a TV Alterosa e foi a mesma ladainha. Mostrou para o segurança da entrada, que chamou a equipe de jornalismo. Os jornalistas olharam as imagens e se interessaram a princípio. Mas logo desconfiaram de inteligência artificial e chegaram a mostrar ao indignado Epaminondas um vídeo muito parecido de IA que rolava pelas redes sociais.

O mesmo aconteceu na TV Candidés, ainda em Divinópolis. Não quiseram exibir uma suposta filmagem feita por IA. Epaminondas não desistiu. Pegou o carro e foi para Belo Horizonte. Na capital, a mesma reação. Globo Minas, Alterosa, Record, Band, ninguém quis passar nos jornais um vídeo feito por inteligência artificial.

E assim, a filmagem mais importante da história da humanidade acabou esquecida em um canal com pouca visualização no YouTube. Mesmo as poucas pessoas que viram o vídeo comentaram que era muito bem feito, mas claramente um vídeo de inteligência artificial.