Histórias de Cordeirinho – Nada a Perder

Histórias de Cordeirinho – Nada a Perder

13 de fevereiro de 2026 0 Por Lucas Conrado

Parte 1: Jorge e Pedro

São José do Cordeirinho, Minas Gerais. 22 de fevereiro de 2002

Jorge bocejou enquanto olhava para o relógio de pulso. Eram quase 10 e meia da noite. Por conta da chuva que havia caído em São José do Cordeirinho mais cedo, o ônibus que ia levar as crianças para o retiro espiritual da Paróquia de Santa Olga ainda estava sendo preparado. Alheio a tudo isso, seu único filho, Pedro, chutava uma latinha na praça, brincando com Marcelo, seu melhor amigo.

No meio da partida, Pedro deu um chute mais forte e a lata bateu na perna de uma mulher que passava por ali. A criança, sem graça, lhe pediu desculpas, assim como Jorge. O pai ainda chamou atenção do filho:

– Ô Pedro, cuidado com o pessoal passando.

– Desculpa, pai – respondeu o menino, voltando a jogar futebol com a latinha.

Apesar de ser noite de sexta-feira, Jorge estava preocupado com o horário da saída do ônibus. Além de se sentir desconfortável, pensando no filho viajando por uma estrada escura e ainda molhada, ele não via a hora de voltar para casa. No dia seguinte, tinha que estar cedo na farmácia, que abria mesmo nos fins de semana. Foi com um certo alívio que Jorge escutou Dona Cleide, uma das participantes mais ativas da paróquia, anunciar que tudo estava pronto e as crianças precisavam embarcar.

– Vem cá, Pedro! Vem pegar a mochila.

O garoto deu um último chute na latinha e correu na direção do pai, estendendo os braços para pegar a bolsa. Enquanto se enrolava com as alças, Jorge lhe dava as últimas recomendações.

– Ô Pedro, cuidado lá no sítio, tá? Não vai pra lugar nenhum sozinho e vê se não inventa de ir nadar num riacho. Cê sabe que pedra é perigosa e a correnteza prende a gente embaixo dela!

– Tá, pai! Preocupa não!

– Também não esquece de escovar os dentes, nem de tomar banho todo dia.

Pedro não respondeu com palavras, mas mostrando os dentes para o pai. Então sorriu e disse:

– Cê lembra do que a Doutora Karen falou? Que eu tava de parabéns por não ter nenhuma cárie?

– Eu sei – riu Jorge – Quando você tiver filho, vai entender. Ah, e se comporta, tá. Não é porque o Padre Leandro é bonzinho que você vai aprontar.

– Pai… fica tranquilo! Você sabe que eu sou quieto.

– É, a moça lá que você acertou com a latinha não concorda muito! – brincou Jorge – Mas já tá ficando tarde. Vai lá, Pedrão!

Jorge se abaixou para abraçar o filho. Um abraço longo e carinhoso.

– Só toma cuidado, tá? E quando você voltar, a gente vai fazer aquele passeio pra pescar!

Ainda abraçado ao pai, Pedro sorriu. Ia comemorar seus 10 anos de idade na semana seguinte e a notícia da pescaria deixou o garoto ainda mais ansioso.

– Tomo cuidado sim. Você também, tá? Te amo, pai!

– Também te amo, filho!

Jorge e Pedro se soltaram e se olharam um pouco. A criança, então, se virou para o ônibus e deu alguns passos. Virou para trás e perguntou:

– Cê comprou meu presente?

– Você vai saber quando voltar do retiro.

– Pai!

– Vai lá, menino! A Dona Cleide tá esperando!

Pedro se virou para o ônibus e correu as escadas. Ele caminhou até um assento na janela e acenou para o pai, que retribuiu o aceno. Pouco depois, o ônibus ligou, arrancou e virou uma esquina, desaparecendo de vista.

Jorge voltou para casa com sentimentos conflitantes. Católico de criação, se sentia feliz com o filho indo para um retiro espiritual, reforçando a conexão com Deus. Ao mesmo tempo, se sentia solitário sem a presença do filho. Por mais que conseguisse trabalhar tranquilo, sem a preocupação de Pedro estar sozinho em casa, ou pior, na rua, ele se incomodava com o silêncio dos quartos e da sala sem o garoto brincando por lá.

O homem andou um pouco mais de 5 minutos até chegar em casa, no bairro Ipês. Trocou de roupa, bebeu um copo de leite morno, escovou os dentes e se deitou. Antes de apagar a luz, deu uma olhada no porta retrato da mesa de cabeceira. Na foto, Jorge estava ao lado de Flavia, que segurava Pedro no colo. O garoto não devia ter mais de 2 anos quando aquela foto foi tirada. Ele suspirou. Sentia saudade da esposa. Deu mais uma longa olhada na foto e apagou a luz do abajur.

Jorge fez uma oração antes de dormir. Pediu proteção para Pedro. Pediu força para suportar a falta de Flavia. Após o sinal da cruz, fechou os olhos e dormiu rapidamente.

23 de fevereiro de 2002. Madrugada

Ponte Nova de São José do Cordeirinho
Ponte Nova construída sobre o Rio Cordeirinho

Um som despertou Jorge no meio da madrugada. Não era o despertador, era a campainha. Ele acordou assustado, com medo de ter perdido o horário do trabalho e seu chefe estar ali. Então, olhou para o rádio relógio, que marcava 2h26 da manhã.

A campainha tocou de novo. Não podia ser coisa boa.

Sonolento, Jorge bocejou enquanto gemia um “já vai”. Calçou os chinelos, acendeu a luz do quarto e andou na direção da sala. Outra vez a campainha tocou. A cada toque, Jorge despertava mais. Ele acendeu a luz do quintal e abriu a porta de casa. Demorou alguns segundos para reconhecer Geraldo, seu amigo de infância e pai de Marcelo. Geraldo tinha uma expressão preocupada.

– Jorge! Que bom que você apareceu. Vem comigo, estão falando que aconteceu um acidente!

Se havia algum resquício de sono em Jorge, ele desapareceu naquela hora.

– Acidente? Como assim?

– Não sei! Tá um disse me disse danado! Cada um falando uma coisa. Mas parece que um carro bateu no ônibus dos meninos e o ônibus caiu no rio!

Jorge nem fechou a porta de casa. Correu na direção do portão e, num movimento rápido, o destrancou. Então, correu para dentro do Kadett de Geraldo, que arrancou a toda velocidade. Junia, esposa de Geraldo, já estava lá dentro, em prantos.

– Gente, que história é essa de acidente?

– A Cida bateu lá em casa me avisando – disse Junia – Ela tava indo com o marido lá pra Ponte Nova. Ela não sabe direito o que aconteceu também, mas disseram que um carro bateu num ônibus e ele caiu no rio. Aí ela foi correndo pra lá com o marido.

– Mas quem “disseram” isso?

– Não sei!

– E será que essa história é verdade? Aliás, será que é o ônibus dos meninos?

– Também não sei, Jorge. Tomara que seja mentira – disse Geraldo.

Em poucos minutos, o carro virou na Avenida Paulo Freire, na direção da Ponte Nova de São José do Cordeirinho. Ao entrarem na avenida, o medo tomou conta dos ocupantes do carro. O caos estava instaurado na avenida. Uma multidão ignorava a madrugada fria e andava para a beira do rio, enquanto viaturas da Polícia e dos Bombeiros chegavam. Geraldo estacionou o carro onde dava e, acompanhado da esposa e de Jorge, seguiu a multidão.

Na esquina com a Rua Chile, perto da ponte, uma Mercedes branca estava destruída. Policiais faziam um cordão de isolamento enquanto bombeiros serravam as ferragens para tirar o motorista do interior. Ninguém sabia se o motorista estava vivo ou morto. Mais adiante, uma multidão se aglomerava na beira do rio, enquanto policiais tentavam afastá-la. Curiosos e pessoas oferecendo ajuda se aglomeravam.

Desesperados, Jorge, Junia e Geraldo tentaram se embrenhar no meio das pessoas para tentar ver se era mesmo o ônibus que levava seus filhos. De onde a polícia deixava chegar, não era possível ver nada, além de equipes de resgate e alguma coisa tombada na água. Estava escuro, mas parecia ser algo grande, assustadoramente parecido com um ônibus.

– É um ônibus que tá ali dentro do rio? – perguntou Jorge a um policial

– É sim.

– Meu filho está lá dentro! Deixa eu passar! – Ele apelou.

– Sinto muito, não podemos deixar!

– Ah, podem deixar sim! – se enfureceu Junia – Você não está entendendo, os nossos filhos estão naquele ônibus!

– Senhora – tentou argumentar o policial – nem nós sabemos quem estava no ônibus. Não podemos deixar ninguém passar!

– Podem sim! Vocês sabem sim! São os nossos filhos! Deixa a gente passar! – apelou Junia.

Assim como Junia, outros pais e parentes se desesperavam diante do cordão de isolamento feito pela Polícia Militar. Alguns mais exaltados gritavam e discutiam com os policiais. Um homem foi detido ao agredir um oficial que o impedia de passar. O medo e a incerteza dominavam a cena, enquanto notícias reais e boatos se espalhavam.

Por volta das 4 da manhã, veio a confirmação que era o ônibus que levava as crianças da Paróquia de Santa Olga para o retiro, aumentando o desespero e a apreensão das famílias. Ao longo da madrugada, pequenos sacos pretos eram retirados da beira da água e levados para o rabecão. O caminhão saía na direção da Policlínica de São José do Cordeirinho e voltava meia hora depois, para buscar mais corpos. Ao mesmo tempo, ambulâncias também iam e chegavam. Inclusive, ambulâncias de cidades vizinhas foram mandadas, já que São José do Cordeirinho tinha poucas unidades.

Ainda durante a madrugada, o motorista da Mercedes foi levado à clínica. Mais boatos se espalhavam. Uns diziam que era o filho do prefeito. Outros, que era um dos donos das fábricas de vidros da cidade. Outros ainda juravam que era um dos Espíndola, uma das famílias mais tradicionais, ricas e poderosas da cidade. Esse era o boato mais forte, já que toda a cidade sabia que a família tinha, sim, uma Mercedes branca. Algumas pessoas diziam que o motorista saiu andando da ambulância. Outros o davam como morto. A verdade é que ninguém sabia de verdade o que estava acontecendo.

O sol nasceu. Só então foi possível ter uma noção real da tragédia. O ônibus estava tombado dentro da água. O lado esquerdo submerso. O lado direito do veículo estava quase todo intacto, com exceção da parte frontal. A região entre a porta e a roda dianteira estava completamente destruída. Foi ali que a Mercedes bateu, o jogando para dentro do rio.

As equipes de resgate ainda atuavam na área, com cordas e canoas. Caminhões do Corpo de Bombeiros de todas as cidades da região estavam ali, além de ambulâncias e viaturas policiais. Com o passar das horas, as ambulâncias passaram a atender mais os parentes das vítimas do que as próprias vítimas. Familiares se dividiam entre a beira do rio e a Policlínica, enquanto cada vez mais corpos de crianças e adultos eram retirados da água.

Enquanto Geraldo e Junia preferiram ir à Policlínica para conseguir notícias de Marcelo, Jorge preferiu ficar na beira do rio, esperando encontrar Pedro. De tempos em tempos, tentava falar com algum bombeiro ou policial para conseguir uma informação, mas ninguém confirmava nada. A angústia tomava conta de Jorge, enquanto esperava por qualquer notícia, positiva ou negativa.

Donos de lanchonetes e padarias levavam comida para quem ainda esperava reencontrar um parente na beira do rio. Foi assim que Jorge tomou o café da manhã, recebendo um pão com manteiga e uma caneca de café de um funcionário da padaria mais próxima. Comeu e bebeu, mesmo sem sentir fome.

– Oi, Jorge – disse um policial se aproximando do homem, sentado no meio fio.

– Oi, Guilherme – respondeu ele, sem emoção – alguma notícia do Pedro?

– É difícil saber. Pela lista que a gente pegou na igreja, o ônibus estava com umas 47 pessoas a bordo. A gente tá trabalhando a noite inteira, teve vítima que veio pra Policlínica. Outros foram para hospitais da região. Ainda não sabemos nem quantas pessoas faltam resgatar.

Jorge não respondeu. Continuou olhando fixamente para o copo de plástico com metade do café.

– Jorge – disse Guilherme – Vai pra casa. Você virou a noite aqui, está destruído de sono. Eu vim justamente porque te vi aqui. Vem comigo, eu te levo na viatura.

– Não. Eu preciso saber notícia do Pedro.

– Qualquer notícia que aparecer, eu vou ser o primeiro a te dizer. Só vamos embora.

– Não posso. Não sem o Pedro.

O policial insistiu mais um pouco e Jorge recusou. Quase nada o tiraria dali.

Já era quase três horas da tarde quando Guilherme voltou para falar com Jorge. Dessa vez, o policial tinha uma expressão ainda mais séria.

– Jorge, ligaram lá da Policlínica. É, tem um garoto que eles querem que você vá reconhecer.

– Ele está vivo ou morto?

– Não disseram.

Guilherme ajudou o amigo a se levantar e o levou até a viatura. Foram aproximadamente 10 minutos de deslocamento até a Policlínica, que estava tão caótica quanto a beira do rio na noite anterior. Com o giroflex ligado e toquinhos de sirene, Guilherme afastou as pessoas até o carro parar na entrada principal do prédio.

Jorge desceu do carro e entrou na Policlínica quase correndo. Parou no balcão da recepção e ao se identificar, ouviu um médico falar às suas costas, ao ouvir seu nome:

– Senhor Jorge Prado? A gente estava te esperando. Me acompanhe, por favor.

Caminharam por um corredor até os fundos da policlínica. Quando o médico abriu a porta, Jorge precisou se escorar para não desabar. Sobre diversas macas, sacos pretos. A maioria pequeno, do tamanho de uma criança. Um ou outro grande. Dois enfermeiros se viraram para Jorge e o acompanharam até um saco.

Os enfermeiros falaram alguma coisa com ele, mas ele não escutava nada além da batida do coração e, sabe-se lá porque, algum passarinho cantando lá fora. Um enfermeiro abriu o saco e Jorge caiu no chão, de joelhos, chorando. Não havia nenhum machucado visível. Só uma expressão serena de um garoto que parecia dormir.

Aquela era a pior notícia que Jorge poderia receber.

Depois de Flavia, Pedro também havia partido. Ele estava sozinho no mundo.

Continua…