Justiça terrena, justiça divina e outras mentiras

Justiça terrena, justiça divina e outras mentiras

27 de janeiro de 2026 1 Por Lucas Conrado

Se você está na internet, já deve ter visto, mesmo que por alto, o caso do cachorro Orelha. Em resumo, era um cachorro “de rua”, acolhido por moradores da Praia Brava em Florianópolis (SC). Numa noite de janeiro, um grupo de adolescentes, filhos de empresários da cidade, espancou o cachorro. Não só espancou, mas também enfiou um prego na cabeça dele e deixou ele agonizando na praia, com o cérebro exposto. Parece que os adolescentes ainda tentaram afogar outro cachorro na mesma noite, pela mais pura diversão.

O cão teve de ser sacrificado, para acabar com seu sofrimento.

O caso ganhou repercussão nacional, com influenciadores, artistas e muita gente revoltada com a história. Ministério Público e polícia estão investigando o caso. Alguns dos adolescentes estão curtindo o fim das férias de janeiro na Disney, enquanto a internet expõe seus rostos, nomes, CPFs e até endereços. Por trás dessa revolta, vem a certeza que não vai acontecer nada com eles. Adultos já não respondem a maus tratos a animais de forma apropriada. Adolescentes têm sanções ainda mais brandas. E, sendo filhos de empresários e milionários de Florianópolis, aí que sabemos o desfecho dessa história.

Justiça dos homens

Teoricamente, existem leis que precisam ser seguidas por todas as pessoas. Se eu atropelo alguém com meu Sandero, eu preciso responder pelo meu ato. Da mesma forma que o filho do Eike Batista precisa responder pelo atropelamento de um ciclista com sua Mercedes Benz SLR McLaren. Mas aí que vem o judiciário com sua mão pesada para cima de você se você cometer um crime. E com sua mão leve, para afagar os cabelos loiros e muito bem cuidados do Thor Batista, mesmo ele atropelando um inocente a 153 km/h. No fim das contas, ele foi absolvido.

Quem ainda acredita na justiça, vai usar uma série de argumentos furados de “ai, o juiz não pode decidir da cabeça dele, tem que se basear no que é apresentado. E é uma pena a família do Wanderson não poder pagar os advogados do Thor Batista, que trouxeram argumentos que o inocentaram”. O sistema é podre, falho, corroído por dentro. É um sistema construído pela elite para beneficiar a elite. Do legislativo ao judiciário, é tudo podre. É revoltante.

Mas não podemos nos revoltar porque somos pessoas boas e vamos para o céu.

A tal da justiça divina

Dizem as religiões que quem faz o mau vai pro inferno. Só assim as pessoas não se revoltam vendo tanta gente se dando tão bem às custas dos outros.

Numa sociedade com ainda vários valores cristãos, sabe qual é o principal motivo que faz as pessoas não se revoltarem e derrubarem tudo que está aí? O medo de Deus. Por mais que eu, e talvez você, não tenha uma religião definida (você pode até ser ateu), somos educados desde criança que todos os nossos atos são acompanhados por Deus e serão julgados no dia do julgamento final. Quem de nós foi bom, vai pro céu. Quem foi mau, vai pro inferno.

Essa história me lembra o que meu melhor amigo me falou na época da faculdade. Judeus, muçulmanos adventistas e outras religiões não podem comer carne de porco. Dizem eles que é pecado, que foi determinado por Deus. Dizem os historiadores que, na verdade, a proibição da carne de porco é uma questão de saúde pública. Mas, se hoje, com a ciência desenvolvida, as pessoas já não acreditam muito em especialistas, imagine numa sociedade sem microscópios e conhecimentos de micro-organismos? Se você tentasse proibir alguém de comer carne de porco falando que faz mal, não ia ter muito resultado. Se você falasse que comer carne de porco é pecado, aí é muito mais eficiente. É como eu enxergo essa história de céu e inferno.

As pessoas vêm com essas fábulas de “ai se você fizer mal a alguém, a vida vai retribuir” ou “a história vai cobrar”. Mentira, gente. Pinochet foi um sanguinário que matou milhares no Chile, traficou drogas, enriqueceu absurdamente e morreu confortavelmente aos 89 anos. Nunca pagou pelo que fez! Assim como Pinochet, são diversos casos na história! É aí que é conveniente inventar uma baboseira de justiça divina!

Um nobre comete um crime absurdo num reino da Idade Média. E nada de mal acontece com ele, afinal é nobre. Sabe qual era a melhor forma de controlar as pessoas e evitar que elas fossem se vingar desse nobre? O padre chegar nelas e falar que era pra elas ficarem tranquilas, porque o nobre ia pagar quando ele morresse. No fim das contas, como ninguém sabe o que vai acontecer depois da morte, o nobre morria e as pessoas se conformavam, achando que ele estava sentado no colo do capiroto. E como elas querem ir pro céu, pra terem um pouco de redenção depois de se ferrarem a vida inteira (sendo exploradas por esse nobre), aí elas ficavam quietinhas.

É por essas e outras que não acredito em lei do retorno, justiça divina, nem em nenhuma dessas baboseiras que inventam por aí. Você colhe muita coisa que não plantou. O universo não vai retribuir o bem que você faz. E não vai retribuir o mal que os ricos fazem, porque a riqueza deles expia qualquer mal que fizeram.

Então quer dizer que eu posso cometer o mal que eu quiser?

NÃO!

Da mesma forma que eu não acredito em justiça, seja humana, seja divina, eu ainda acredito que podemos ser pessoas melhores. Fiz jornalismo querendo transformar o mundo. Vivendo no século 21, sei que não posso fazer muita coisa. Na verdade, posso fazer quase nada. Mas esse quase nada, eu faço o melhor que posso, tentando não passar ninguém pra trás e tentando fazer minha parte para melhorar um pouquinho que seja as coisas.

Acredito que uma andorinha não faz verão. Mas cada andorinha fazendo um pouquinho, as coisas já melhoram. Não acredito em justiça humana nem divina. Não chego a ser ateu, mas não sigo religião nenhuma. Mas gosto muito dos exemplos que Jesus Cristo deu sobre amor ao próximo, compaixão e tentar fazer o possível pro mundo ser melhor.

Inclusive, o que mais tem hoje é cristão que não segue o básico do que Jesus ensinou.

Um filho de milionário de Santa Catarina pode espancar um cachorro até a morte que nada vai acontecer com ele. Se você espancar um cachorro até a morte (ou espancar o filho do milionário), a chance de acontecer algo a você é muito maior.

E o mais importante de tudo. Você espancando o filho do milionário, um cachorro ou seja lá o que for, não vai melhorar em nada as coisas. Por favor, faz a sua parte pro mundo não ser ainda pior do que já é.