Não me dê mais presentes, por favor!

Não me dê mais presentes, por favor!

13 de janeiro de 2026 0 Por Lucas Conrado

No me regalen mas libros porque no los leo
(Trecho da música La Vuelta al Mundo, da banda porto riquenha La Calle 13)

Semana dessas pra trás, um colega de trabalho virou pra mim e falou: “Uma coisa que eu gosto em você é que tudo pra você tem um significado. Montevidéu não é só uma cidade, é o lugar onde você passou as férias com sua noiva. Um prato não é só um prato, é o que você comeu naquele mochilão. Você dá significado pras coisas e isso é legal”. Olha, amigo, isso é muito legal sim. Quando você não está de mudança.

Estou muito feliz. Depois de quase 27 anos sonhando com isso, escrevo meu primeiro post do meu apartamento em Belo Horizonte. Como você pode ver pelo que escrevi no antigo blog, eu sou perdidamente apaixonado por essa cidade. E estou aqui, realizando um sonho que tenho desde meus 10 anos. Moro em Belo Horizonte. No entanto, isso tem um preço: a mudança.

O colecionador

Passei oito anos morando sozinho num apartamento de dois quartos. Desses oito anos, passei praticamente a metade solteiro. Isso é, não tinha nem visita frequente em casa. Portanto, eu fazia o que queria no apartamento. Colocava o que eu queria. Aquele apezinho era meu território de 45 metros quadrados, com tudo que eu queria ali dentro.

E eu sempre gostei de coleções. Livros, DVDs, jogos de videogames, os próprios videogames, Lego, bugigangas do Star Wars, carros, aviões, trens… Enfim, com minha atenção, ao mesmo tempo, dispersa e focada, cada hora surgia um interesse novo, um hobby novo, e uma coleção nova. Meu hobby mais recente é o ferreomodelismo, que junta duas paixões minhas da vida: maquetes e trens.

(Aliás, clica aqui pra ver o meu perfil de ferreomodelismo no Instagram, o OCT Trens)

Essas coleções são muito legais, mas elas têm um problema sério: ocupam espaço. E com a especulação imobiliária de Belo Horizonte, espaço é um negócio cada vez mais raro. Especialmente quando você vai morar com sua noiva.

Maquete quase finalizada que fiz do primeiro capítulo do livro O Grande Mentecapto, do Fernando Sabino

Você fica, você sai

Aí que começa o desespero! Como falei lá em cima, eu dou significado para as coisas. Essa caneca é de uma viagem muito legal que eu fiz. Esse é o ingresso do show do Jorge Drexler. Essa é a passagem daquele voo especial para a Colômbia. Olha como era o menu dos voos da extinta Avianca Brasil! Enfim, são pedacinhos da minha história, que formam um mosaico e me ajudam a ativar memórias esquecidas da minha cabeça ruim.

Pra quem vê de fora, é fácil falar pra jogar isso fora, aquilo fora. Não é parte da história dela, não tem um valor sentimental. Mas pra mim tem. Aí bate o primeiro desespero da mudança: o que fica, o que sai. Porque agora vou dividir o apartamento, a vida com alguém. Os 45 metros quadrados (mentira, não sei a metragem do apê novo) não são meus 45 metros quadrados. São compartilhados, terei “direito” a uns 22,5 metros quadrados. É outra pessoa, com sua história, seus valores, seus itens queridos dividindo espaço comigo.

O desespero

E o tempo vai passando, vou tentando separar as coisas, jogando algumas fora, guardando outras, e a separação da mudança não rende, nada avança além das horas. Apesar de surgirem quatro, cinco, seis, oito sacos de lixo imensos e lotados, a quantidade de coisas nas caixas não acaba.

E, antes de eu terminar de organizar essa caixa, começo a organizar a outra. Aí não sei mais onde coloquei o carregador do celular que estava ali. E onde está aquela foto com minha noiva no nosso passeio em Toulouse? Será que joguei fora sem querer? Aí rasgo um saco de lixo, reviro tudo e a foto não está lá. Será que estava no outro saco que já foi embora?

A foto estava em cima da pia da cozinha.

Quando olho no relógio, são 3 horas da manhã e eu quero dormir. E a arrumação está longe de acabar. Neste momento, no auge do cansaço, vem aquele pensamento: “cansei, a vontade é jogar tudo fora e começar tudo de novo, só com a roupa do corpo, os documentos e o cartão do banco! Não dá! Eu junto coisa demais!”

E quando vou jogar a próxima coisa fora, é um cartão postal, daquela viagem super legal para Tiradentes. Tá, esse cartão não vai pro lixo.

Não me dê mais presentes, por favor!

Meu aniversário está chegando, é daqui a 10 dias. Passando pelo trauma de mais uma mudança, eu só tenho um desejo: não me dê mais presentes! Sério, vocês são pessoas queridas, têm significado para mim, não quero jogar fora o que você me deu.

Dessa forma, te peço: não quero souvenir, lembrancinha da sua viagem para Londres. Da mesma forma que não quero miniatura de navezinha do Star Wars que você comprou na Disney. Também não quero outro cartão postal, outra caneca, outra camiseta. Tampouco quero outro livro, já estou vendendo metade deles e tenho cada vez menos tempo nem energia para ler, infelizemente. E não tenho espaço pra mais nada em casa.

Quer me dar um presente? Me dá um pix! Estou juntando dinheiro pra comprar um apartamento espaçoso e encher de bugiganga. Prometo que não olho quanto você me deu. Só peço para que não traga mais souvenir, nem postal, nem nada, pois estou sem espaço em casa.

Ainda falta muito pra isso, mas não quero chegar nem perto de aparecer em Acumuladores