O jornalista de cabeça quebrada que queria voar
Parte 2: o jornalista
Lembra que contei na primeira parte como quebrei a cabeça? Agora eu preciso contar como esse traumatismo craniano me fez ser jornalista. E um pouquinho do que fiz nesses anos de Comunicação Social. Mas, antes, vamos voltar um pouco no tempo. Pra antes mesmo de eu quebrar a cabeça.
O que você quer ser quando crescer?
Acho que essa é a pergunta que a criança mais escuta em seus primeiros anos: “O que você quer ser quando crescer?”. Cara, eu já quis ser TANTA coisa. Astronauta, pedreiro, cabeleireiro, jogador de futebol e piloto de Formula 1. Bombeiro, médico, cinegrafista, diretor de cinema, biólogo, astrônomo, escritor. Cartunista, veterinário, zootecnista. Comissário de voo nunca passou pela minha cabeça. Nem jornalista.
Mas tinha uma profissão que sempre voltava às minhas respostas de tempos em tempos: piloto de avião. Entenda, eu sou apaixonado por aviões desde que me entendo por gente. Nasci no interior de Minas, mas morei em São Paulo até os 14 anos de idade. Isso porque meu pai trabalhava no Aeroporto de Guarulhos, na Varig. Ele não trabalhava diretamente com aviação, era mais no setor de telecomunicações, eletrônica e depois informática. Mas estava numa companhia aérea. Me trazia revistas de aviação, além de aviões de brinquedo. Nas folgas dele e nas minhas férias, sempre me levava ao aeroporto. Perdi as contas de quantas vezes almoçamos no antigo McDonald’s de Guarulhos, vendo os aviões sendo preparados para o voo.
Não tinha jeito. Eu TINHA que trabalhar com aviões. As pessoas diziam isso. Se eu não fosse piloto, eu acabaria trabalhando num aeroporto. Check in? Controle de tráfego aéreo? Catering? Sei lá, mas todos traçavam que meu destino era ir para a aviação.

Sweet dreams and flying machines on pieces on the ground
Quando fui crescendo, fui percebendo que não seria assim tão fácil realizar o sonho de ser piloto. Por mais que eu tenha sido privilegiado, nascendo em uma família bem estruturada e economicamente estável, meus pais não tinham dinheiro pra bancar meu curso de piloto. Para conseguir realizar o sonho de ser piloto, eu precisava arrumar outro emprego. Mas qual?
Lembra lá no início que, quando criança, eu queria ser tudo? Pois é, adolescente, eu não queria ser nada. Meu pai sonhava que eu seguisse seus passos, trabalhando na área de programação. Já minha mãe queria que eu fosse dentista. Mas eles nunca fizeram muita pressão para que meu irmão ou eu seguíssemos o que eles sonhavam. Sempre tivemos liberdade para escolhermos a profissão que queríamos. O problema é: o que eu queria, além de voar?
Fui avançando pelo ensino médio e, com o passar dos anos, o vestibular foi chegando cada vez mais perto. E, com ele, a pressão para a gente escolher, no alto da nossa imaturidade dos 16, 17 anos, qual profissão a gente deveria seguir pelo resto da nossa vida. E assim, chegou um dia que eu conversava com minha professora de história e compartilhei com ela essa minha indecisão. E falei que a única coisa que eu tinha certeza que queria na vida era pilotar aviões. Mas que era muito difícil conseguir o dinheiro para isso.
E foi aí que ela soltou uma frase que nunca mais esqueci: “Olha Lucas, você tem outro problema pra realizar o sonho de ser piloto. Você teve traumatismo craniano e fez uma cirurgia na cabeça. Você não pode ser piloto”.
Não, não podia ser verdade. Precisava conferir a informação com mais alguém. Numa época que internet banda larga engatinhava no Brasil e era um custo entrar no Orkut, eu não conhecia ninguém da aviação para confirmar isso pra mim. No entanto, dentro de casa, havia alguém que tinha trabalhado na Varig por 17 anos: meu pai. Corri pra ele e perguntei se a cirurgia que fiz na cabeça poderia me impedir de pilotar aviões e ele foi categórico.
“Infelizmente, te impede sim”.
Uma coisa é você não poder pilotar aviões por falta de dinheiro. É, teoricamente, poder correr atrás da grana pra poder fazer as horas de voo. Outra, completamente diferente, é você não poder realizar um sonho por um problema de saúde. Não ter dinheiro no mundo, prêmio da mega sena, aposta em cavalos, jogo do bicho, agiotagem que vai te colocar no cockpit.
Naquele dia eu fui tomar banho chorando. O sonho acabou.
Se não posso voar, o que eu posso fazer? E o que quero fazer?
O problema de você querer só fazer uma coisa é você não poder fazer essa coisa. Aí você não quer mais nada. Não havia profissão nenhuma que me interessava de verdade. Na área de exatas eu era ruim, programar, por exemplo, não seria tão fácil. Na área de humanas, os salários são ruins. Eu poderia tentar História, Geografia ou algo assim que eu gosto. Mas não ia conseguir dinheiro pra pagar nem o aluguel e ia morrer de fome. É simplesmente difícil demais escolher algo minimamente interessante.
Dessa forma, cheguei a 2006 para fazer ENEM e vestibular. Meio influenciado por uma paixonite do ensino médio, eu botei na cabeça que queria ser diplomata. Viajar o mundo inteiro, morar em outros países, andar de avião pra cima e pra baixo. Lendo sobre o assunto, descobri que o concurso público do Ministério das Relações Exteriores era o mais difícil do Brasil. Eu precisaria estudar, e muito. E, para facilitar a vida, decidi tentar Relações Internacionais na PUC e Geografia na UERJ.
Passei em Relações Internacionais, mas sem bolsa de estudos. Meus pais nunca tiveram condições de bancar a mensalidade de uma PUC, ainda mais eu tendo um irmão mais novo que estudava em escola particular. Aí fui fazer o vestibular da UERJ. Passei na primeira fase com uma nota muito boa. Chegou a hora de fazer a prova específica. Sempre tirando boas notas na escola e indo fazer um vestibular de um curso relativamente fácil de entrar, acabei não estudando direito. E me lasquei. Não consegui entrar em Geografia na UERJ.
Sentado no chão de casa com meus primos…
Era dezembro de 2006 ou janeiro de 2007. Ainda esperando uma improvável reclassificação na UERJ, eu passava a virada de ano em Carmo do Cajuru, terra da minha família. Eu estava na casa do Jota, meu primo mais velho, conversando sobre vestibular com meus pais, irmão, o próprio Jota e sua esposa, Fabricia. O assunto era o de sempre, eu não sabendo o que fazer da vida profissional. Administração? Arquitetura? Ciências Sociais? Nada me fazia o olho brilhar de verdade. Era um porre.
Aliás, tinha uma coisa que eu adorava fazer: escrever. Modéstia a parte, apesar de eu estar bem enferrujado agora, sempre gostei muito de escrever e as pessoas costumavam elogiar meus textos. Sentado no chão da sala, comentei de forma quase displicente que eu sempre pensei em Jornalismo como segunda ou terceira opção de vestibular, para aprender técnicas de escrita e, quem sabe, publicar livros no futuro.
Foi unanimidade naquela sala que eu devia fazer jornalismo. Diziam que eu era bom de escrita, interessado em notícias. Desde criança, parava para assistir Jornal Nacional, ler revistas e tal… Saí da casa do meu primo convencido que eu queria ser jornalista! Essa seria a minha profissão, já que eu não podia voar.
Quatro anos e meio de faculdade…
Em resumo, fiz o pré-vestibular, estudei que nem um corno e em janeiro de 2008, recebi a notícia tão esperada. Passei no vestibular da UFRJ para jornalismo. Iria começar a faculdade no segundo semestre daquele ano! Fiquei parado naquele primeiro semestre e, no início de agosto, comecei as aulas.
O período da faculdade foi muito bom. Fiz muitos grandes amigos ali, amigos para a vida inteira. Adorava o campus, conhecia o palácio onde a gente estudava como a palma da mão. Aprendi fotografia, edição de imagens, um bocado de técnica de filmagem e edição de vídeo, softwares de editoração, enfim, um bocado de coisa. Isso sem contar com a forma como a universidade me transformou, abrindo demais a minha mente e entendendo um pouco mais de outros pontos de vista. E, mais do que fazer jornalismo, a faculdade me ensinou a ler jornalismo. A ter senso crítico e entender as intenções por trás da forma como a mídia publicava e deixava de publicar informações e visões.
Mas, tinha algo de estranho ali. Por mais que eu gostasse, tinha aquela sensação de que não era exatamente o que eu queria. Era legal, mas não era aquilo, sabe?
E no último período da faculdade, eu já estava trabalhando CLT, com 8 horas por dia no escritório. Chegava em casa cansado, ainda tinha que escrever o TCC. Eu não via a hora de me livrar daquela fase e me focar na vida profissional. Talvez, só sendo jornalista, sem obrigações acadêmicas, eu poderia finalmente curtir o jornalismo.
Um pouco de tudo
Vou te falar que passei por diversas áreas contando meus estágios e meu emprego no jornalismo. Meu primeiro estágio foi no setor de mídias sociais do Canal Futura, mais especificamente programando os tweets do canal. Além disso, criava pautas para o Conexão Futura, um programa de entrevistas que tinha várias entradas ao longo da tarde. No ano seguinte, fui para uma agência de assessoria de imprensa, a maior da América Latina. Meu setor só cuidava de cliente tranquilo, como concessionária de energia elétrica, indústria farmacêutica, petrolífera, construção civil, gerador eólico e consórcio construtor de usina hidroelétrica. Pra você ter uma ideia, eu li uns 6 mil matérias sobre a Usina Hidroelétrica de Belo Monte. Foi uma experiência…
Depois fui para o estágio que mais gostei. Apaixonado por ciências como sempre fui, fiquei muito feliz quando passei na seleção para trabalhar na Revista Ciência Hoje, a mais antiga de divulgação científica do Brasil. Mais legal ainda foi escrever para a Ciência Hoje das Crianças, explicando conceitos científicos e fazendo experiências para os mais novinhos. Você não tem noção de como é bonitinho parar para ler cartas que crianças escreveram.

E, por fim, fui contratado para trabalhar numa agência de comunicação do Rio de Janeiro. A gente prestava serviço para vários clientes, mas o principal disparado era a TV Globo. Lembra daqueles programas de sábado de manhã, tipo Globo Ciência, Globo Ecologia, Ação e tal? Pois é, a gente escrevia as matérias dos sites deles. Também cuidávamos do site do Criança Esperança. No dia do especial, a gente estava lá, entrevistando os artistas e acompanhando o evento. No restante do ano, a gente visitava instituições do país inteiro, vendo como o dinheiro arrecadado era aplicado.
Acredite, o dinheiro do Criança Esperança vai para as instituições. A Globo não encosta no dinheiro. É troco de pinga pra eles.
Nesse período, eu conheci muita gente legal, entrevistei muitos famosos, falei com pessoas que nunca imaginei que falaria. Xuxa, Renato Aragão, Fernanda Souza, Chico Pinheiro… Até o M. Night Shiamalan eu encontrei nessa época. Sim, o diretor de O Sexto Sentido, Sinais e afins. Olha a nossa foto aí do lado!
Mas ainda faltava alguma coisa…
Voar
Nessa época de repórter, a gente ia muito pra São Paulo cobrir eventos da Globo. E o pessoal do escritório não gostava de ir. Também pudera, era acordar de madrugada, passar o dia inteiro carregando equipamento pesado, mochila, câmera, bateria, lente, microfone… Ficava na rua até sei lá que horas, voltava pro hotel, dormia e no dia seguinte era tudo de novo. Teve uma palestra que a gente foi cobrir que era chatíssima, parece que ficamos três anos naquele auditório.
Apesar disso tudo, eu ADORAVA fazer essas viagens e me candidatava pra todas. E era uma candidatura quase sem concorrência, ninguém queria esse pepino. Chegou num momento que, ao invés de nossa chefa perguntar quem queria ir pra São Paulo, ela perguntava quem queria ir comigo pra São Paulo. A minha vaga estava garantida. Por que eu gostava tanto de fazer essas matérias? Simples, porque a gente ia de avião.
Como diz o título da série, eu era o jornalista de cabeça quebrada que queria voar.

O que reprova no CMA?
Aquela sensação voltou forte. De que o jornalismo era legal, me dava várias oportunidades de conhecer gente legal, de ficar viajando de avião por aí e tal, mas, de novo, não era o que eu queria… Não me trazia aquela realização de vida. Eu estava ali de modo quase automático. Indo pro escritório, escrevendo, filmando, editando, voltando pra casa, indo dormir, indo pro escritório no dia seguinte e tal… Apesar das inúmeras horas extras, especialmente nas noites de sexta-feira, a grana estava sempre curta. Enquanto eu estava no escritório, via meus amigos saindo, me chamando pra tomar uma. Via eles namorando, noivando, casando. E eu lá, solteiro, sem grana, sem perspectiva. Não era nem de longe o que eu queria.
O maior prazer que eu tinha era o de voar de avião. Era o mais perto que eu podia chegar de realizar o sonho de ser aviador. Aliás, será que era mesmo? Acho que até agora eu não falei, mas estávamos no ano de 2013. Desde 2011, eu era viciado em podcasts, passando o dia inteiro com o fone de ouvido ligado. Ouvia podcasts de tudo, entre eles um chamado Canal Piloto. Um dos episódios tinha o título “O Que Reprova no CMA?”. CMA é o Certificado Médico Aeronáutico, um atestado que pilotos, comissários e mecânicos de aeronaves precisam ter pra trabalharem na aviação. O médico falou de várias questões de saúde que reprovam ou não os candidatos. E, no fim do programa, ela deixou o email dela para quem tivesse alguma dúvida. O meu coração disparou!
Lembra no começo do texto, quando meu pai e minha professora disseram que eu não poderia voar? Naquela época eu não tinha com quem tirar a prova, certo? Agora eu tinha. O email estava ali, anotado no meu caderno. Abri o Gmail e escrevi um email curto, falando sobre o acidente que sofri em 1998, a cirurgia e o fato de eu não ter tido sequelas. Perguntei se aquilo me impedia de ser piloto. A resposta chegou menos de duas horas depois. Segue abaixo ipsis literis:
“Lucas,
Se você não tem sintomas e o EEG estiver normal, não há problema. Você terá que enfrentar a avaliação de qualquer maneira, portanto faça logo.“
Foi o segundo email mais bonito que eu já recebi! Eu poderia, sim, ser piloto de avião!
O livro que mudou a minha vida
Saber que eu poderia ser piloto me deu uma nova perspectiva. O salário de jornalista ainda era uma merda, mas, quer saber? Cansei! Eu ia correr atrás do sonho de voar. Ainda não sabia como, de onde ia tirar o dinheiro. Mas eu iria correr atrás do sonho.
Aliás, no dia que voltei da Campus Party de 2015, passei numa livraria e comprei o livro Três Céus, escrito por um cara que viria a ser meu amigo, o Enderson Rafael. O Enderson também participava do podcast do Canal Piloto e, de tempos em tempos, citavam o livro. Comprei e devorei a história em poucos dias.
Três Céus conta a história de dois comissários de voo e um piloto de uma companhia aérea brasileira. Como o Enderson foi comissário, o livro retratava bem a rotina da profissão. A parte boa e a parte ruim. Além de saber como era a vida dos tripulantes, teve outra coisa no Três Céus que me fisgou na hora. Um dos personagens era um ex-jornalista que tinha virado comissário de voo e procurava pelo grande amor da vida dele. Seu nome? Lucas Luchesi.
Como você deve ter percebido, meu nome é Lucas. Na época, eu andava insatisfeito com minha profissão e também procurava o amor da minha vida. E eu ainda seguia a profissão que o personagem do livro tinha abandonado. Aliás, até a minha personalidade era igual à dele. Quando terminei de devorar o Três Céus, fechei o livro e pensei: “quer saber? vou virar comissário de voo”.
Depois eu volto com a parte 3 da história: Que Queria Voar…
Só um esclarecimento
Eu OBVIAMENTE não guardo mágoa do meu pai nem da minha professora por terem me falado que eu não poderia ser piloto de avião. Eles obviamente queriam me bem e estariam felicíssimos de me ver realizando o sonho de voar. O lance é que eles tinham uma informação errada. Talvez desatualizada. Na verdade, nem é tão errada assim.
Pilotos militares não podiam ter sofrido cirurgia. Para pilotos civis, não havia essa restrição, desde que estivessem com a saúde em dia.
